O ódio (II)

Volto no tempo e me lembro do governo Sarney, logo após a derrocada da ditadura. Sarney era um “coronel” nordestino, udenista da velha guarda, que apoiou a ditadura e só pulou fora quando o barco começou a fazer água. Dentro do figurino padrão da elite, com o barco afundando, ela se reuniu e fez um acordão para eleger, indiretamente como exigem agora, um conservador moderado para presidente com um conservador radical para vice-presidente. Foram eleitos pelo Congresso, mas Tancredo morreu antes de assumir, e Sarney tornou-se o primeiro mandatário da República redemocratizada do Brasil.

Se, pelo lado político, seu governo pode ser elogiado pelo esforço em manter e fortalecer a democracia reconquistada a duras penas – reintroduziu eleições diretas para cargos executivos na Constituição, aprovou o voto para os analfabetos, os partidos comunistas foram legalizados – pelo lado econômico, foi uma desgraça: após tentar vários planos – Cruzado, Cruzado II, Bresser, Verão – seu governo terminou com uma inflação astronômica da ordem de 84,23% ao mês ou 4.854,9% ao ano.

Quem exerceu uma oposição feroz e, muitas vezes injustificada, nestes tempos, foi o PT, criado ainda na ditadura, por operários do ABC paulista, intelectuais e membros das comunidades de base da igreja católica, e apoiado pela imensa maioria daqueles que lutavam contra a ditadura. Era uma oposição ferrenha, desmedida, sem tréguas, que não deixava espaços nem para negociações pontuais, mesmo em órgãos do governo, como na empresa em que eu trabalhava, que tinha uma configuração mais técnica, pela essencialidade de seu trabalho para o setor produtivo do país.

O grupo petista nesta empresa tinha se formado a partir de 1978, quando ela criou uma superintendência de Engenharia para acompanhar e fiscalizar as muitas obras que implantava pelo país: praticamente todo o grupo de engenheiros e técnicos contratado para estes trabalhos era filiado ao PT e, em pouco tempo, já assumira a direção da associação de funcionários, brigando constantemente tanto por melhorias nos acordos coletivos de trabalho, quanto para interferir na gestão da empresa.

Neste período, ainda militar, mas de abertura lenta, gradual e segura, eu era assessor de imprensa da empresa – naquela época, assessor de imprensa significava ser assessor também de relações públicas, publicitário e assessor político da diretoria – e fazia parte das minhas funções ser uma espécie de algodão entre cristais, o primeiro elemento a receber e filtrar choques e reivindicações do corpo funcional, através de sua associação.

Como eu disse lá no início, eu gosto de política, mas não sou político, isto é, minhas convicções pessoais, mais pendentes para a esquerda, nunca interferiram em minhas relações pessoais ou no cumprimento de minhas atividades profissionais.  E, por isso, consegui me manter como um interlocutor confiável para ambas as partes, sempre divergentes e em permanente disputa, especialmente pelo radicalismo dos petistas de então, que costumavam contestar até uma vírgula mal posicionada no Acordo Coletivo de Trabalho.

As discussões eram sempre acirradas, demoradas, cansativas, deixando todos exaustos, nervosos, explosivos… mas não havia ódio! A distensão do ambiente, mesmo que o discutido permanecesse pendente de solução e tivesse que ser retomado no dia seguinte, era feita num boteco, onde o percentual de aumento do salário ou a criação de licença-prêmio eram substituídos pela vitória/derrota do Flamengo, pelas fofocas sociais na empresa, pelas ‘besteiras’ que o general de plantão andava dizendo (eram tempos de abertura e falar mal dos generais já não resultava em prisão e tortura…)

No governo Sarney, eu ascendi ao nível mais alto que um técnico apolítico e desprovido de apadrinhamento político pode alcançar numa estatal: chefe de gabinete da presidência da empresa. E continuei como algodão entre cristais, agora com muito mais poder, claro! Muitos adversários torceram o nariz… assim como muitos ‘amigos’. E, por isto, houve mais atritos, as discussões  ficaram mais politizadas e a distensão continuou sendo num boteco, mas em mesas separadas…!

Mas não havia ódio!

O ódio se infiltrou lentamente no tecido social brasileiro a partir da ascensão de Lula à presidência da República. Por quê? Já li algumas teses sociológicas e explicações psicológicas sobre isto, mas nenhuma delas aborda, com a devida coragem e desprovida de qualquer facciosismo político, o ponto central que, acho eu, é muito simples: o caráter historicamente preconceituoso do brasileiro, esteja ele na elite, na classe média ou entre os pobres.

Toda a minha ascendência paterna e materna, com as honrosas exceções de praxe, era socialmente preconceituosa, e a maioria dos descendentes hoje, continua sendo, mesmo que de modo sutil, pouco perceptível… uma palavra que escapa no meio de uma conversa, uma observação que é feita a uma cena de novela. Só que nossa sociedade sempre conviveu pacificamente com isso, vez que cada segmento social sempre soube qual era o “seu lugar”… até que um operário, membro das classes baixas foi eleito para a presidência da República, durante 500 anos ocupada pelas classes mais altas.

 

As milhares de piadinhas, historinhas, charges, vídeos e fotografias ilustrativas das situações inusitadas surgidas a partir das políticas inclusivas do governo Lula são retratos fiéis da sacudida que tais situações provocou na cabeça conformada dos brasileiros em geral: aeroportos entupidos de gente falando alto, com pano na cabeça ou carregando sacos de pano, diaristas, caseiros, manicures chegando ao trabalho dirigindo carro próprio, shoppings abarrotados de jovens ‘de cor’ fazendo compras, entrando nos cinemas, consumindo nas lanchonetes e fast-foods e, o que é pior, todo mundo de celular na mão, discutindo, vaiando, aplaudindo… manifestando-se livremente, enfim!

Não há paz social que aguente! E o ódio se instalou, substituindo gradativamente a tolerância e a convivência passiva, ajudada pela agressividade que explodia nas redes sociais, imediatamente estendida e expandida pela grande imprensa. Os sanguinolentos noticiários policiais, as exóticas atrações dos programas de auditório, os pseudo-repórteres a escancararem a vida privada de autoridades e celebridades mudaram o paradigma da nossa sociedade: o brasileiro cordial acabou!

     

E selvagerias como esta tornam-se banais, aplaudidas e reproduzidas, com júbilo, pelas redes sociais…

 

 

 

 

 

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