Descaramento ou é falta de caráter mesmo?

Eu meus tempos de jornalista em Belo Horizonte, eu tive que conviver com bandidagens explícitas e difusas, as primeiras na cobertura de delegacias de polícia, porta de entrada de qualquer repórter daquela época, início da década de 70, e as segundas como ‘foca’ (principiante) cobrindo política na Câmara de Vereadores, primeiro e, depois, já repórter,  na Assembléia Legislativa mineira e alguma coisa de política nacional. Não durou muito tempo, uns quatro anos, porque em 1975 vim para Brasília.

Nas delegacias, não havia muito o que discutir: o meliante – assaltante de galinha ou de joalheria, estuprador ou homicida, ainda suspeito ou culpado confesso – chegava algemado, mais ou menos machucado, depois de apanhar muito ou pouco  da polícia (“Ele resistiu, chefe, tivemos que dar um cacete nele!), e, geralmente, não negava o crime cometido, por mais horrendo que ele fosse aos olhos de um jovem filho da classe média, que quase nada conhecia, na prática, da vida dura da imensa maioria do povo brasileiro.

Na política, não havia ferimentos físicos ou olhos amedrontados ou, por outro lado, um certo conformismo com um destino “que Deus quis”… havia arrogância, havia a certeza de que os mal feitos nunca seriam descobertos ou, se o fossem, seriam empurrados para debaixo do tapete, porque “todo mundo fazia”! E havia um descaramento natural, como se as falcatruas, grandes ou pequenas, os acordos políticos para aprovar decretos que beneficiavam a si próprios ou grupos financeiros, e os conchavos para indicar apadrinhados para “suculentos” cargos públicos, fossem inerentes ao poder que tinham como representantes eleitos pelo povo.

Depois, em Brasília, não mais como repórter, mas como assessor de comunicação de uma estatal, ou seja, não mais como estilingue, mas como peça de defesa da vidraça, e dependente da boa vontade dos parlamentares para levar a contento tal trabalho, senti efetivamente a que ponto chegava a bandidagem difusa.

Quando ainda repórter, a hoje chamada grande imprensa (e eu trabalhava nela, primeiro num veículo dos Diários Associados, depois numa emissora de rádio da Cúria Metropolitana e, por fim, na ainda não tão poderosa Rede Globo, que acabara de comprar a TV Belo Horizonte) e que, naquela época, sem sites, blogs ou redes sociais, era apenas ‘a imprensa falada e escrita’, separava sua face comercial de sua face editorial e, por isto, a gente, mesmo quando ainda “foca”, conseguia emplacar algumas denúncias, desde que fossem locais e muito bem comprovadas (tipo aquelas que o ministro Herman Benjamim apresentou contra a chapa Dilma/Temer).

É desta época que vem minha imensa repugnância ao descaramento.  Que, aliás, se tornou uma das fórmulas mais plausíveis de convivência pública nestes tempos modernos, de redes sociais ativas, em que juízes, procuradores, promotores, policiais, servidores públicos enfim, se igualam a políticos e personalidades de todos os matizes e, ávidos pelas luzes dos holofotes,  trocam a sobriedade e a seriedade de princípios pelos três minutos de fama proporcionados por uma câmara de televisão em horário nobre, ou pela glória de um simples milhar de seguidores fiéis no facebook.

Assistindo a transmissão do julgamento da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral, senti, quase que fisicamente, a dor desta repugnância. Basta uma frase para que esta repugnância se materialize em um vômito irreprimível, a lembrar o BLEARGHHHHH! de Gastão, o vomitador, personagem do Jaguar no velho e saudoso Pasquim, inspirador do nome deste blog. E, como não poderia deixar de ser, a frase é de Gilmar Mendes, justificando seu voto pela não cassação da chapa Dilma/Temer:

“Não se substitui um presidente da República a toda hora. A Constituição valoriza a soberania popular, a despeito dos valores das nossas decisões. Mas é muito relevante. A cassação de mandato deve ocorrer em situações inequívocas”. Uma frase, aliás, que soa ponderada e responsável, digna de uma Justiça que não tem medo das pressões da opinião pública ou publicada, baseando-se apenas nos fatos, os quais deveriam estar cabalmente demonstrados nos autos do processo.  Exatamente aí é que entra a irrefreável vontade de vomitar: as provas, inúmeras, copiosas, insofismáveis transbordavam do processo…

Mais do que isto: quando esta mesma Corte, há dois anos atrás, julgou estas mesmas contas, a ministra relatora, baseando-se nos autos que, então, ainda não estavam recheados pelas delações da Odebrecht e dos publicitários João Santana e Mônica Moura, votou pelo arquivamento do processo, foi voto vencido, exatamente porque o ministro Gilmar Mendes via indícios de corrupção eleitoral. Disse Sua Excelência então: “É grande a responsabilidade desse tribunal, pois não podemos permitir que o país se transforme em um sindicato de ladrões”. E completou: “Levei cinco meses para trazer este pedido de vista por uma razão: a toda hora tinha que fazer atualizações em função dos fatos que se sobrepõem — como já se disse, atribuindo-se ao ministro Teori Zavascki [então relator da Lava Jato no Supremo], ‘puxa-se uma pena e vem uma galinha na Lava Jato’.(…) O pouco que já se revelou, e certamente há muito a se revelar, já é suficiente para que nos preocupemos”

Naquela época, Dilma ainda era presidenta da República e o ínclito constitucionalista já se movimentava despudoramente para derrubá-la, o que foi conseguido através do golpe parlamentar, que substituiu-a, com a bênção de Sua Excelência, pelo “chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil”, conforme dedurou o chefão da Friboi. Ao que tudo indica, “esse tribunal” , por 4 votos a 3, permitiu que o país continue sendo governado por um “sindicato de ladrões”…  Socorro! Cadê o Gastão?

Evidentemente, este é o descaramento explícito, aquele que aparece escancarado na mídia, já que o julgamento foi público e quem quis e pôde, acompanhou, ao vivo. Mas a hipocrisia é mais intensa, se é que pode existir gradação em atitudes hipócritas ou descaradas! O fato é que, sem muito alarde e rapidamente desaparecido, publicou-se em um dos grandes jornais que  “o grupo J&F, que controla a JBS, gastou nos últimos dois anos R$ 2,1 milhões em patrocínio de eventos do IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público), que tem como sócio o ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal). Ao ser questionado pela Folha sobre o assunto, o instituto disse que devolveu R$ 650 mil deste total no dia 29 de maio, após a revelação do acordo de delação premiada de executivos da empresa.” (O resto já tinha sido gasto, claro!)

Evidentemente, o jornal aceitou a explicação do IDP, já que o assunto não foi mais mencionado em suas páginas… mas, seria interessante saber o que o dono do Instituto, o impoluto ministro Gilmar Mendes pensa a respeito do controlador principal da empresa que foi chamado, pelo presidente da República do Brasil, de “bandido notório de maior sucesso na história brasileira”. Ninguém fez esta pergunta a ele… Os trêmulos beiços de Gilmar, a vibrar de “indignação” devem amedrontar os estagiários e ‘focas’ das atuais redações brasileiras…!

Aliás, esta situação de um ministro do Supremo Tribunal Federal ser proprietário de um instituto de ensino jurídico é outra fantástica maravilha do “jeitinho brasileiro de ser” (ou brazilian way of life): elucidativa reportagem de Patrícia Faerman  no GGN, no último dia 15 de junho (http://jornalggn.com.br/noticia/as-polemicas-envolvendo-o-idp-de-gilmar-mendes), lista a extensa gama de empresas e multinacionais que patrocinam eventos do IDP, muitas delas com demandas importantes junto ao Supremo Tribunal Federal, o que levantou uma questão interessante: o ministro seria isento para julgar tais demandas?

Não, ninguém precisa se preocupar com isto! Afinal, como explicou candidamente o próprio ministro, apesar de ser sócio, ele “não é, nem nunca foi, administrador do IDP”. Sendo assim, não há como se manifestar sobre questões relativas à administração do instituto”. Evidentemente, nenhum veículo da grande imprensa lhe perguntou se o fato de não participar da gestão do Instituto significava  dizer que ele não toma conhecimento de quem são os patrocinadores dos eventos e, muito menos,  qual o valor pago por tais patrocínios…! Socorro! Cadê o Gastão?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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