Um lugar sem crise (V)

Paz e felicidade, a busca de todos

Ilustração: EMBrito

 

— Você falava de prenhez… Ou melhor, de não prenhez…

— Pois é! Durante uns 10 anos eu fui cozinheira, lavadeira, costureira, absorvente infértil do pinto do meu marido e companheira de brincadeiras de dois filhos dele… O terceiro, enquanto foi pequeno substituiu a boneca que eu nunca tive: quando dava, botava ele no colo, fingia que dava de mamar, dava banho, acalentava, dava comida na boquinha… Durante este tempo, Marcião ainda tentou fazer mais filhos, mas um dia cansou, falou que daquela barriga não saia nada, arranjou outra mulher, por sinal uma prima minha que também tinha sido deflorada pelo mesmo tio.

— Durante mais um tempo, manteve segredo da outra mulher, mas quando ela teve o segundo filho dele, resolveu trazê-la para casa e me disse que, se eu não quisesse, ia me devolver para o pai. Eu já desconfiara de outra mulher na história e vinha preparando minha fuga daquela desgraça que era minha vida, apesar do amor pelos meninos.

— Tinha um negociante de Montes Claros, um sírio-libanês que todo mês aparecia na região vendendo um monte de bugigangas e, principalmente, tecidos. Toda vez que a gente ia na vila fazer alguma compra e ele estava por lá, ele lançava aqueles olhares compridos para o meu corpo, que tinha ficado bem ajeitado, apesar da lida dura.

— Na semana que meu marido avisou que ia trazer Tonica e os dois meninos para casa, sêo Tufic estava na vila. Eu falei para Marcião que ia precisar de mais coisas então, e, dia seguinte fomos à vila. Enquanto ele ia na venda conversar e beber pinga e os meninos se espalhavam pelas ruelas, eu fui às compras e, desta vez, encarei o olhar pidão do turco. Ele ficou meio louco e eu fui direta, passando a mão pelo peito: “Quer? Tem que me levar daqui…” Ele balbuciou qualquer coisa, esfregou as mãos, coçou a cabeça, sem tirar os olhos dos meus peitos, e sussurrou: “Vou embora amanhã cedo. Se estiver aqui, levo você…”

— Comprei uns panos para fazer roupa de menino e duas toalhas, paguei e saí meneando o corpo bem devagar, para garantir a promessa. Perto da venda, parei e olhei para trás: Tufic continuava parado no mesmo lugar, com os olhos pregados na minha bunda. Tive certeza que no dia seguinte eu sairia dali. E descobri algo mais importante ainda: meu corpo era o caminho da minha libertação e da riqueza…!

— Para resumir a história: Tufic era casado, tinha uma família bem posta em Montes Claros mas, como todos os bem postos da sociedade local, tinha que manter uma amante exclusiva. Ele era um bom homem e eu fui esta amante por uns 03 anos. Vivia numa casa de mulheres, algumas delas exclusivas como eu, e aprendi toda a arte de agradar os homens com elas, principalmente com as que não eram exclusivas. Como Tufic rodava muito pela redondeza vendendo suas bugigangas, me sobrava bastante tempo e, como eu pensava um pouco mais que as colegas, me aproximei da igreja onde reencontrei o padre de Cocos que me casara. Em confissão, contei-lhe minha história e ele, talvez envergonhado de ter feito o casamento, resolveu me ajudar: pediu para a irmã dele, que era professora, me ensinar a ler e escrever. O mundo se abriu para mim e, em três anos, me senti preparada para enfrentar este mundo.

— Com uma ajuda financeira substancial de Tufic, que já estava meio cansado daquela vida dupla e ficou até certo ponto aliviado e concordou com a minha partida, fui para Belo Horizonte. Tinha, ainda tem, um edifício no centro da cidade, Arcangelo Maletta, que tinha de tudo: pequenos apartamentos, escritórios, lojas e muitos barzinhos embaixo, onde se reunia a fauna boêmia de Beagá. Por recomendação de outro sírio-libanês, um amigo de Tufic, fui morar lá numa república de estudantes. Minha intenção era, realmente, estudar… mas, para me sustentar, eu tinha que fazer a coisa que, agora, eu sabia fazer melhor: conquistar homens. E comecei a frequentar aquela gente esquisita do Maleta.

— É… eu conheci bem o Maletta, mas alguns anos antes de você… Era uma fauna mesmo, mas muita gente famosa na música, na literatura e na política conviveu bastante naquele ambiente. Muitas ações juvenis contra a ditadura foram perpetradas ali, entre copos de Brahma gelada e espetinho de “gato”…

— Ali conheci o único homem que amei na vida, com quem tive minha única filha, que não conheceu o pai. Ele era estudante, filho de uma família tradicional do interior de Minas. Quando a mãe dele soube que ele havia engravidado uma zinha (ela não era capaz sequer de falar a palavra p…*, exigiu que o pai o mandasse para os Estados Unidos, onde ele ficou de vez. Morreu há pouco tempo atrás sem conhecer a filha e os netos). Ali conheci o velho que reconheceu que eu era algo mais que peitos, bunda e pernas abertas e me tornou uma cafetina de luxo, o que resultou no que sou hoje, gerente de um clube de sexo e suingue que atrai uma clientela selecionada do Brasil inteiro e de onde vou me aposentar brevemente, com a graça do seu Deus…

— Atéia, é?

— Ou atoa…? Com a vida que tive, não tem como não ser…! Mas feliz! (Fim. Ou não!)

2 comentários em “Um lugar sem crise (V)

    1. Obrigado, gata… Mas Dezinha precisa estar disponível e disposta para que haja novos capítulos.
      Enquanto isto, falemos de política, onde a sacanagem não é nem um pouco prazerosa… Feliz niver atrasado para a gatinha…

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