Um lugar sem crise (II)

 

Não há tempo ruim onde abunda  a sacanagem

Ilustração: EMBrito

Nós fomos num dia da semana… E, ao contrário, estava cheio. Muitos velhos carecas, barrigudos, mas de calção ou bermuda, refestelados pelas espreguiçadeiras à beira da piscina, com garrafas de uísque, vodca, vinhos em portas gelos por perto, e muitas mulheres de saída de praia, deixando entrever  peitos e b……* siliconados, de cabelos bem pretos ou com reflexos de louro, olhos e bocas pintadas, cocoteando como se tivessem sido misses em tempos passados, há muitos e muitos anos passados, aliás…

Também tinha jovens morenas, duas louras – nenhuma preta –  e jovens morenos, nenhum louro, mas três pretos, todos sarados, borboleteando entre a clientela. E, de fato, Dezinha era uma mulher interessante… Assim como o p……*, ou melhor, o Swing Club…

O portão de entrada era comum… nada que chamasse muito a atenção. E, dentro, devia ter um revestimento acústico muito poderoso porque não se ouvia qualquer som quando paramos no portão e dois guardas de roupa preta se aproximaram do carro. Um deles reconheceu o motorista de imediato e fez um sinal para que o portão fosse aberto.

Meu amigo que, naquelas circunstâncias deveria ser meu “companheiro” ou “companheira”, levou o carro até um estacionamento sob árvores bem copadas e com uma dúzia de carros apenas, sinal de que ele estava certo… tinha pouco movimento. “Isto não quer dizer nada não… A freguesia, geralmente é buscada de van no aeroporto ou em pontos estabelecidos antecipadamente” – explicou ele.

Passamos por uma alameda de palmeiras imperiais e adentramos numa saleta onde uma recepcionista mulata tipo exportação abriu um sorriso, piscou os longos cílios postiços e disse para meu amigo: “Que prazer em ver o senhor de novo! Marcou com alguma das meninas?” E, reparando em mim, reforçou o sorriso, piscou algumas vezes e voltou a parecer profissional: “Seja muito bem vindo, senhor… Prefere conhecer o clube sozinho ou deseja uma ou um acompanhante para mostrar-lhe todas as nossas maravilhas?”  “Deixa disso, Violeta, eu não marquei com ninguém, só trouxe meu amigo aqui, que é homem – deu uma piscadela para ela – para conhecer a Dezinha. Me liga pra ela aí, por favor… Depois, veja se a Zú está disponível e diga que eu estou por aqui, certo?”

Dezinha nos recebeu numa sala reservada numa espécie de mezanino que tinha sobre o salão central, logo após a recepção. Cruzando o salão, já dava para ouvir que havia bastante gente no clube, principalmente do outro lado, onde, tudo indicava, ficava a piscina. Meu amigo foi abarcado pelo largo sorriso de Dezinha, uma morena baixa, 1m60 mais ou menos, de corpo bem feito, apesar dos mais de 50 anos, cabelos pretos cheios de mechas alouradas, olhos bem marcados de rímel violeta e lábios carnudos pintados por um batom rosa suave.

— E então, doutor? Não resistiu uma semana, heim? Não vá se apaixonar pela Zú, pô! Que eu perco 20% da minha clientela…

— Vá se f….*, Dezinha… Eu lá tenho idade pra me enrabichar por p…*? Já se você topar se aposentar desta vida e se tornar mulher de sociedade, sabe que eu topo até casar pela quarta vez…

E riram felizes, ignorando totalmente a minha presença.

— É o seguinte, Dé: meu amigo aqui é escritor, gosta de contar histórias… E mora aqui, além de ter se divorciado recentemente. Ele relutou muito em vir aqui – você lembra como eu era logo depois que me divorciei da última? O oposto, claro! – e eu disse que você tinha histórias incríveis sobre o alto meretrício neste Brasil varonil… e bote vara neste varonil! Você tem um tempinho para conversar com ele enquanto eu bato um papinho maneiro com a Zú na suíte presidencial? Mas, não me traia com ele, heim?

Enfim, ela percebeu a minha presença, piscou os longos cílios falsos e sorriu (era um sorriso bonito, mas triste, achei). “Perdoe-me, senhor, mas ele me tira do sério! O amigo tem certeza que prefere conversar com uma velha meretriz quase aposentada?”

— Muito prazer, Dezinha… Se você não se importa, prefiro sim. Eu…

— Ele não gosta de Viagra… – gozou meu amigo , rindo – Já eu, adoro! E, por isso, deixo vocês à vontade. Conversem bastante, ‘tá? – Piscou e saiu.

Dezinha me levou para uma espécie de varanda que saia do mezanino, dando vista para toda a área da piscina e do bar, bem como de vários bangalôs que ficavam mais distantes, todos alcançados por pequenas trilhas gramadas, cercadas de pequenas muretinhas de cipreste. A piscina e o bar estavam cheios, numa alegria um pouco exagerada… um pouco falsa, talvez (ou seria prevenção minha?).

Dezinha falou alguma coisa no celular, me indicou uma cadeira para sentar, disse que precisava dar uma voltinha para ver como estava o ambiente, mas logo voltaria para conversarmos e saiu. Pouco depois chegou um garçom com uma garrafa de uísque, gelo e club soda e alguns salgadinhos que colocou sobre a mesinha, perguntou se eu queria que ele servisse e, como eu disse não, pediu licença e saiu.

Eu gosto de beber uísque… mas não de dia. Então me servi do club soda e pus-me a observar aquele microcosmo da raça humana em sua atividade mais primitiva: tentar saciar o desejo e o instinto sexual. É fascinante! (continua)

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