Um lugar sem crise (III)

A elite se mistura sem qualquer preconceito

Ilustração: EMBrito

Um senhor de barriga proeminente, pernas finas saindo de um bermudão preto, contrastando com sua brancura, e com uma cabeleira branca de maestro, de pé, falando alto e gesticulando muito para um grupo à sua volta, chamou minha atenção . Não dava para ouvir o que dizia e nem perceber a fisionomia dos ouvintes – minha visão está mais velha que eu – mas deu para perceber que Dezinha, saindo por debaixo do meu posto de observação, ia diretamente ao encontro dele.

Chegou, botou a mão em seu braço, fez um agrado na barriga e cochichou alguma coisa. Ele imediatamente olhou em minha direção, balançou negativamente a cabeça, fez uma espécie de mesura para o grupo, agarrou o braço de Dezinha e saiu andando com ela até uma rede desocupada em meio às muitas redes ocupadas por vários casais numa espécie de bosque próximo à piscina. Deitou-se na rede, Dezinha deu-lhe um beijo e voltou para a piscina. E, como uma verdadeira anfitriã, parava num grupo, sorria, trocava algumas palavras, acarinhava uma barriga aqui, despenteava uma cabeleira ali e sorria… sorria muito.

Em pouco tempo, deu a volta na piscina, parou no bar e sumiu salão adentro. Apareceu no meu recanto segurando um copo de laranjada, se arranchou na espreguiçadeira ao meu lado e perguntou: “Me pareceu que você gostava de uísque, e eu não costumo errar… Quer um mais velho?” Eu disse que ela acertara, mas que não gostava de beber durante o dia… mas que, em homenagem a ela, tomaria uma dose agora. “Você me acompanha?” Ela aceitou e, enquanto eu servia o uísque, ela foi direta: “Você é jornalista, não é?”

— Fui! Há muitos e muitos anos… Depois, assessor de imprensa… de comunicação… Incondicionalmente aposentado há uns 15 anos. Agora, um simples blogueiro que ainda quer realizar o sonho de se tornar escritor!

— Fico feliz. Não gosto mais de mentir e acabei de dizer para o desembargador que você era jornalista. Para ele se acalmar…

— Desembargador, é?

— Aposentado também… mas famoso, você não o reconheceu?

— Meus olhos estão muito mais velhos que eu, Dezinha. A certa distância, só vejo vultos! Mas a cabeleira branca me soou familiar… Desembargador?

— Já faz algum tempo… Juiz muito religioso, temido pelo rigor, principalmente com a moral e os bons costumes… E foi flagrado no banheiro da sala dele no tribunal transando com a secretária uns 30 anos mais nova que ele!

— Sim! Claro! Saíram algumas insinuações nas colunas sociais quando a mulher dele pediu o divórcio… mas ele continuou desembargador, não? Veio gastar o que restou de sua moral e bons costumes aqui?

— Pior… Ele casou com a secretária, o que limpou um pouco a barra dele, mas uns dois anos depois, ele flagrou a amante-esposa com um jovem promotor. Ele tinha sofrido um acidente qualquer e estava usando uma bengala… e desceu a bengala na mulher, enquanto o promotor fugia! A mulher apresentou e retirou a queixa, a imprensa abafou o caso, mas ele teve que se aposentar. E veio morar numa chácara, Campos do Senhor, logo aí na outra rua. E com a mulher! Toda vez que ela sai para a cidade, para fazer compras, para jogar biriba com as amigas e, claro, encontrar amantes, ele vem para cá e inverna por aí… dois, três dias… E não faz nada, só discursos para assustar os pecadores, além de beber desesperadamente.

— Você está bem acostumada com esta fauna humana, não?

— É… são mais de 30 anos de vida “alegre”, como diziam antigamente. Que foi bem triste no começo, mas que está sendo compensada agora: meus dois netos gêmeos estão na faculdade, um estudando Medicina , todos aceitam bem o que a avó sempre foi e sempre será até aposentar, o que não demora muito. Só não sei se vou conseguir viver longe disto…

O vozerio da piscina aumentou um pouco de volume, o celular dela tocou e ela se levantou e saiu rapidamente, dizendo: “Já volto!” Perto do bar, um grupo se formara e dois seguranças tentavam atravessar o grupo, que se fechava em torno de alguma coisa que não dava para eu ver o que era.

Dezinha apareceu abaixo, chegou no grupo e deu para ouvir sua voz acima do burburinho: “Afastem-se!” O grupo foi se abrindo e ela entrando no corredor formado até que vi duas mulheres engalfinhadas no chão. Dezinha chegou de lado, botou o pé na bunda da que estava por cima e chutou forte… a briga parou instantaneamente! Não ouvi ela dizer nada! As duas se levantaram e foram saindo em direção ao salão, acompanhadas por Dezinha.

Meia hora depois, ela retornou para a espreguiçadeira ao meu lado.

— Tem um industrial do interior de Minas, cliente antigo, que promete mundos e fundos para a menina que ele escolhe quando chega aqui. Ele fica com esta menina duas, três vezes e, depois escolhe outra. Todas as meninas sabem disso, mas tem aquelas que pensam que conquistaram o velho e quando ele vem e escolhe outra, acham que foi a outra que fez alguma coisa para o velho abandoná-la. Nesta minha vida, meu amigo, Deus, feitiçarias e maus olhados convivem fraternalmente… (continua)

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