A última aventura (II)

                   Em toda a minha vida profissional, eu apliquei uma expressão que aprendi de um professor de Ética no Curso de Jornalismo: “mais cedo ou mais tarde, a irresponsabilidade cobra seu preço”. Isto me veio à memória dois dias depois desta minha última aventura, quando estava escornado na cama da pousada, com o coração acelerado, a cabeça fustigada por pontadas agudas e o corpo moído, como se tivesse levado uma surra de porrete.

Alguns dias já passados, e com apenas umas juntas ainda rangendo, não consegui responder a pergunta crucial: por quê, há poucos dias de completar 70 anos, com vivência e consciência suficientes para saber das minhas limitações físicas, eu me dei o direito de ser irresponsável? Acho que nunca vou conseguir responder isto, e acho que assim é melhor, porque nunca fiquei tão feliz comigo mesmo por ter feito algo tão irresponsável…!

A história é a seguinte: minha caçula, vinda do México com seu companheiro, me convidou para passarmos a virada do ano na Chapada dos Veadeiros, junto com a filha do coração, o marido e as filhas. Primos aderiram à ideia e formou-se um grupo com 10 jovens, 04 crianças e 01 ‘melhoridoso’, eu, que se hospedaram na Pousada Veredas, a uns 05 km (de estrada de terra) de Cavalcante, todos (os jovens) ávidos para, enquanto aguardavam o champanhe da virada, explorar as trilhas e conhecer as muitas e afamadas cachoeiras do entorno.

Na sexta, dia da chegada, não havia tempo para excursões. Mas havia muito tempo para bater papo, rir, montar duas barracas e… beber, claro! Os jovens são escolados nestas coisas e, como a pousada não impedia, já chegaram com os carros pesados de cerveja. Conversa boa corre solta e não tem hora para acabar. Ou seja, o ‘melhoridoso’ já começou exagerando: muita cerveja rebatida com suas tradicionais doses de uísque do início da noite.

Dia seguinte, a escolha da primeira aventura: Santa Bárbara, a mais famosa e mais procurada pelos turistas ou alguma no entorno da pousada? Um guia informou que àquela hora, a primeira já devia estar cheia e tinha limitação de visitantes. Decisão, então: vamos conhecer as daqui. Pegamos dois carros – a caçula, indisposta, não foi – e seguimos caminho até uma encruzilhada para duas ou três cachoeiras. Escolheram uma, não sei mais se Toca da Onça ou Veredas/Veredinhas ou Véu de Noiva. E pegamos a trilha.

Eu já tinha dado uns cem passos trilha adentro, ainda uma suave subida, quando alguém, acho que Pedro, operando como guia, anunciou que o caminho tinha uns 1.800 metros até a cachoeira. Eu já estava começando a resfolegar, mas pensei: “eu fiz caminhada algum tempo da minha chácara até a Rua 06; cada quadra tem uns 450 metros; da Rua 09 até a 06, ida e volta dá 2.700 metros… É mole, então!” Empinei o queixo, fiz cara de mau e andei mais cem passos, quando o coração quase saiu pela boca pela primeira vez…!

Estaquei repentinamente, o que assustou alguns jovens que vinham atrás, mas não caí… Segurei a primeira árvore que passava correndo pela minha frente e escorreguei – acho que suavemente – até uma pedra maior que estava dando sopa por ali e sentei. O coração já estava na boca, mas travei os dentes, dei um safanão com a língua e ele voltou correndo para o lugar dele.

Denis e Lipe apressaram o passo e se aproximaram preocupados, enquanto Daniel, ou melhor, Cabrón – os primos são implacáveis em apelidar os recém-chegados – já estava me amparando os ombros e perguntando: “Què passa?” E eu, entre uma golfada de ar e outra: “Não… é… nada…! Não… é… nada…! Tropecei…!” Aí eles repararam que eu estava subindo a trilha de sandálias havaianas, aquelas que nunca deformam nem saem do pé… Derrubam o cara, torcem o pé dele, mas permanecem íntegras…!

Denis foi prático como sempre: reparou os pés dos demais jovens próximos, viu que o tênis dele era o único que servia nos meus pés, tirou-os, me ajudou a calçá-los e assumiu minhas havaianas. E ninguém deu um pio! Todos observaram a troca sem qualquer observação, tipo: “Pô! Como é que o coroa vem para uma caminhada calçado de sandálias?” Ou: “Não adianta… este aí não chega até o final!” E eu também não disse nada, porque só conseguia abrir a boca para resfolegar…!

Operação feita, me escorei na árvore que tinha ficado quieta e me levantei de supetão, só para mostrar que estava pronto para seguir viagem (nunca desejei tanto voltar uns 50 anos atrás, quando um baseadinho maneiro me levaria ao topo em poucos segundos, para inveja dos parceiros de escalada).

Respirei fundo e comecei a caminhar de novo. Estava mais seguro agora, sem uma sandália se agarrando nas pedras ou torcendo meu pé para um lado ou outro. Mas, um problema persistia, e este não tinha como resolver, pensei eu: a visão deficiente me obrigava a fixar a vista nos pés, para encaminhá-los para pisadas seguras e, com isto, não focava o redor, muitas vezes batendo em galhos ou dando de frente com uma rocha inesperada. Nos lugares mais acidentados, sempre aparecia a mão salvadora de um dos jovens.

De vez em quando, todos paravam. Era um sinal não combinado para que eu sentasse em alguma pedra e retomasse o fôlego e devolvesse o coração para o peito. Eu sentava então e ficava admirando, num misto de orgulho e inveja, Dênis e Kika ou João e Nê ou, na base do revezamento, Vana e Cris subindo a trilha com as crianças no colo e Clarinha, com seus 05 anos e de sandálias (eu disse de sandálias, não sei se havaianas!), saltando pedras e pulando galhos como uma verdadeira cabrita montêsa.

A certa altura, Cabrón percebeu as minhas dificuldades para visualizar os obstáculos inesperados,  e foi rápido e eficaz: sob gozação da turma (“olha lá o defensor da natureza derrubando árvore!”), arrancou um galho comprido da beira da trilha, partiu-o em dois e criou um cajado que tornou minha caminhada muito mais fácil.

Os 1.800 metros foram vencidos finalmente, levando-nos a uma suave descida e a uma encruzilhada. Os mais afoitos já tinham tomado uma e desaparecido, os menos, paramos nela e elucubramos durante algum tempo qual trilha tomar. Doido para chegar e mergulhar os pés em água fria, fui enfático: “Pela lógica, eles foram por esta, que é uma descida…” E seguimos por ela: ao final, não havia ninguém, nem mesmo uma cachoeira! Mas tinha um riacho acolhedor, com uma corredeira e um belo remanso convidativo. Por lá nos largamos, enquanto dois voltavam à encruzilhada e iam atrás dos outros pela outra trilha.

Sentei-me numa pedra por onde corriam formigas cabeçudas que, felizmente, não me atacaram. Havia uma pequena escarpa entre minha poltrona de pedra e o remanso, ou seja, não consegui mergulhar os pés na água fria. Para fazê-lo, eu tinha que escorregar pela escarpa, que era pequena, e me enfiar na água até os joelhos, no mínimo. Preferi me aquietar e fiquei observando as formigas. Eu não enxergava direito aqueles seres cabeçudos (ou bundudos, não sei), mas sabia que elas tinham um comando: seguiam, uma a certa distância da outra, um mesmo caminho, que se perdia atrás de uma rocha, umas duas pernadas de onde eu estava. Vez por outra, havia algum distúrbio na rotina delas – água que salpicava o caminho, vento que arrastava folhas ao local, um pé humano a pisar as pedras – e as formigas se espalhavam mas, logo depois, sob algum sinal de “atenção! Em forma”, todas voltavam à posição de fila e à rotina já traçada. Como na vida de todos nós, enfim.

Estava neste devaneio idiota quando alguém lembrou que os ‘procuradores’ estavam demorando e a turma, para minha angústia, resolveu ir atrás dos demais. Retornamos à encruzilhada e pegamos a outra trilha. Quando ela estava começando a subir, alguém gritou de um lugar ao lado: “É por aqui, gente… Não estão ouvindo o barulho da água?” O único barulho que eu ouvia era meu coração cogitando seriamente em explodir, mas me acalmei e sorri: eu conseguiria chegar nesta também! Logo vi a bela cachoeira e um convidativo lugar para recostar meu corpo dorido e mergulhar meus pés intumescidos.

As crianças se acomodaram por perto, com seus baldinhos e brinquedinhos de borracha, as mães também, e os jovens foram explorar a cachoeira, passando, inclusive, por baixo da queda d’água. E eu fiquei pensando na vida: eu já havia passado por experiência semelhante, trilhar um caminho no meio do mato em busca de um objetivo, mas tinha um lapso de tempo de 50 anos entre uma e outra.

Quando da primeira, pela Serra do Curral, eu tinha um objetivo momentâneo na vida, chegar a Nova Lima, e um caminhão de objetivos imaginados para a minha futura vida, que estava só começando. Esta última, numa pequena serra da deslumbrante Chapada dos Veadeiros, eu tinha um objetivo imediato, que era chegar a uma cachoeira, que se transformou, no caminho, em outro, único e crucial: chegar! E o caminhão de objetivos imaginados está completamente vazio: alguns foram alcançados, outros ficaram pelo caminho.

Beirando os setenta, não há tênis ou cajado que me ajudem a enfrentar novos desafios pela frente. A amizade e o carinho de jovens que vi crescer, namorar, casar, ter filhos e sentir que eles e elas (mesmo minhas filhas distantes, que acompanhei de longe) alcançaram ou estão alcançando seus objetivos na vida, é um grande alento para mim, misturado à alegria de pensar  que eu contribuí direta ou indiretamente para isto.

Não vou ver nenhum deles chegar aos 70. Mas, tenho certeza que chegarão e, desde já, lanço um desafio: na virada de 2048, alguns beirando os 70, voltem à Chapada e façam esta trilha de novo. Lá do alto, que alcançarão com facilidade, parem, olhem para o caminho vencido e reflitam na vida, na beleza da vida, mesmo com todas as quedas e decepções, mesmo com todos os reveses e traições que o mundo nos reserva e lembrem-se que um dia um ancião, seu tênis emprestado e seu galho-cajado natural, escorregando, resfolegando, trupicando, chegou lá em cima também. E venceu seu último desafio! (fim)

 

10 comentários em “A última aventura (II)

  1. Como sempre suas histórias muito me emocionam… E com lágrimas nos olhos e muita alegria em meu coração, te agradeço por fazer parte da minha vida e da minha família. Além da nossa incrível aventura, o nosso fim de semana passado também foi cheio de alegria e muitas coisas boas, inclusive a comida (modéstia a parte 😊). E que essa não seja a última, mas quem sabe a primeira de muitas outras, que podem ser mais leves…😘

    1. Feliz de quem, como eu, pode chegar à velhice cercado de jovens amorosos e carinhosos, além de especialistas na arte de cozinhar (sua comida estava uma delícia!). Obrigado por me ler e comentar. Fico ansiosamente aguardando as muitas aventuras futuras. Beijo no coração, L

  2. Impactante poder leer y ver a través de lá percepción de cada quien, me sorprende todo lo que vemos en conjunto quisiera poder entender más tu idioma y poder conversar sobre esto que todos vimos y sentimos en ese lugar. Las hormigas caminando una tras otra, en un mismo ritmo con un mismo objetivo, tal cual como lo hicimos nosotros. Pedro también escribió que percibia que somos como hormigas en este mundo. Todos como hormigas logramos grandes asañas, necesitamos de la experiencia de los más viejos, de la pericia y práctica de los más jóvenes, de las risas y entisiasmo de los más pequeños. Todo aquello hizo bella esta expedición. Leo, tal vez está no es la última aventura. Puede ser la primera de muchas en las que muchos quisiéramos acompañarte y escuchar eso que tienes que decir y dar esos pasos en conjunto como grupo cómo colectivo como seres humanos que se acompañan. Ustedes falan: Tamo Junto! Companheiro, companherio, filho da puta filho da puta. Y eu seu companheiro!!!
    Me comprometo a regresar a la Cachoeira en 2048
    Ojalá me puedas leer, y entender. Fuerte abrazo Leo.

    1. Cabròn, estoy muy contento por tê-lo como leitor e comentando em meu blog. Mais ainda por tê-lo como companheiro querido de minha Lara. Nossos países não muy hermanos são muito parecidos: um povo imensamente alegre e politicamente analfabeto que segue como formiga uma elite predadora e pouco interessada nos destinos do formigueiro. Quièm sabe sus hijos e mis netos consigam, finalmente, mudar isto? Que Popocatepetl me ouça… L

  3. Leo, parabéns duplamente! Primeiro pelo níver e segundo, por nos proporcionar uma leitura tão mineiramente deliciosa como esta sua última aventura! Também concordo com seu professor de Ética, que a vida cobra os atos irresponsáveis, um dia, mas ainda bem que esse dia não chegou ,pois as vezes precisamos contrariar determinadas situações, aceitar desafios e vencê-los, como vc fez ! Abraços

    1. Obrigado, Bel. Acho que você é minha leitora mais antiga. E permanece fiel, o que é sinal de que estou conseguindo transmitir algo. Quanto aos desafios da vida, acho que vou aceitar apenas os intelectuais, como este de escrever o blog. Físicos não ‘guento’ mais não: o colesterol está mandando mais que a adrenalina!

  4. Está feito o pacto, proponho esse desafio em 2048, com muita alegria, saudade e boas lembranças, chegarei ao topo me acabando em lágrimas de saudade desse maravilhoso contador de histórias, companheiro de algumas viagens e amado sogro.
    Do genro da massa analfabeta que te ajuda a tomar a boa e velha cachaça.

    1. Pacto feito entre dois genros, um brasileiro e um mexicano… Espero que consigam convencer Joey, o americano, a também participar do pacto. Lá de cima (ou de baixo) jogarei um pingo de pinga para os deuses abençoando a escalada.

    1. E eu espero estar preparado – uns tempos de Acadeimia, talvez? – para acompanhar você nas próximas aventuras… Obrigado, Nana, por ler e comentar. Esta é a minha maior aventura hoje: escrever um blog que seja lido por todos…

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