Novo ano novo… (?)

Este texto é um mea-culpa do texto anterior (Velho ano novo). Nele, eu fui muito ranzinza (a idade provoca angústias existenciais que dão má digestão e, consequentemente, azia mental) com esta data que, independentemente do comercialismo, desperta tantas esperanças pelo mundo todo.

Minha primeira filha me puxou a orelha por causa disto. Escreveu: “Eitcha que tá ranzinza!” Estou mesmo… E impaciente, pouco disposto a ouvir as pessoas, irritado com as coisas que as pessoas ditas responsáveis vêm fazendo com o Brasil… E com uma vontade enorme de sair pelas ruas com uma metralhadora nas mãos dando tiros nesta massa inerme que só quer saber de ter seu dim-dim depositado no fim do mês, de modo a empurrar a vida por mais um mês!

Minha segunda filha não tomou conhecimento da ranzinzisse e me desejou uma ótima virada na Chapada, pedindo para aproveitar as boas vibrações e energias positivas de lá, jogando-as para o lado delas também que, por causa do Trump, imagino, estão precisando…

Minhas duas outras filhas foram comigo para a Chapada dos Veadeiros. Junto com uma turma de jovens que vi crescer, namorar, casar e ter filhos, e que levaram um filho e três filhas entre 02 e 10 anos.

Pois não é que este quase septuagenário conseguiu caminhar cerca de 02 km de trilha íngreme em busca de uma cachoeira (mas isto é história para outro texto). Cheguei quase morto e passei as duas horas seguintes meio jogado numa rampa de pedra, com os pés mergulhados na água que corria fria, límpida e revigorante. Perto de mim, as três meninas se esbaldavam nesta mesma água.

E isto foi ainda mais revigorante. Uma nova geração está crescendo e já aprendendo que o Brasil é belo demais, é rico demais para ser relegado a um 3° ou 4° escalão entre as nações. Seu povo, passivo, conformado, pouco politizado, não merece as lideranças corruptas e entreguistas que tem, nem as instituições públicas que só buscam atender seus próprios interesses corporativos. Posso não ver isto, mas um dia a passividade acaba.

Por isto, não tinha o direito de ficar resmungando pelos cantos. Quando os militares, açulados pela mesma elite que empalmou o poder agora em 2016, derrubaram o governo em 1964, a massa também era inerme: ficava em casa assistindo a TV Globo a maldizer o governo comunizante que queria transformar o Brasil numa nova Cuba ou acompanhava as madames bem vestidas que saíam às ruas com seus terços reluzentes a marchar com Deus pela liberdade e contra o comunismo.

E houve gente que lutou contra isto. Mesmo com a violência crescente imposta pelos “guardas-da-esquina”, mesmo com as fanfarronices e os descaramentos dos Maruns e Geddels da época, houve gente, mesmo com o sacrifício de muitas vidas, que não desistiu de lutar por uma democracia plena, por uma pátria justa, por um país menos desigual.

E desejar um feliz ano novo para 2018, em que há uma possibilidade, mesmo tênue, destes desejos serem realizados, não pode ser menosprezado por mim. Mesmo não tendo mais qualquer esperança de ver o Brasil se tornando a grande nação que merecia e deveria ser – afinal, estou escalando os 70 anos e a minha geração não conseguiu transformar isto em realidade – tenho convicção que este momento chegará algum dia. E que meus netos e netas terão orgulho de dizer que são brasileiros. E – quem sabe? – poderão contar a seus filhos que o bisavô deles morreu acreditando nisto.

Estava eu, emocionado, a escrever nesta linha otimista, doido para encerrar este texto com um tradicional, mas absolutamente sincero ‘Feliz Ano Novo’, quando ouvi duas notícias seguidas: “Roberto Jefferson emplacou sua filha como Ministra do Trabalho” e “Petrobras fecha acordo com fundos-abutres e vai pagar R$10 bilhões aos acionistas americanos da empresa”.

Roberto Jefferson é aquele antigo deputado petebista do Rio, que recebeu um agradinho de 04 milhões dos cofres petistas, cuja destinação é desconhecida até hoje, e que, quando exigiu mais e não recebeu, acusou o então ministro José Dirceu de corrupção, numa famosa entrevista à Folha de São Paulo, o que resultou no processo do mensalão petista (o petista, porque o tucano continua passeando de gaveta em gaveta da eficiente justiça mineira). Como a delação premiada ainda não era usada e abusada pelos procuradores, acabou por perder o mandato e sendo preso em Bangu. Mas continuou dono do PTB, indicando, portanto, sua filha, também petebista, para ministra de Temer. Em relação ao acordo da Petrobras, antes mesmo da manifestação da Justiça americana, sugiro uma lida do assunto em www.ggn.com.br e em www.conversaafiada.com.br.  Dá vontade de vomitar…!

Que minhas filhas me perdoem, mas este governo (incluindo o presidente da Petrobras) fica no poder até 31 de janeiro de 2018…! Não será um Feliz Ano Novo!

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