Os sons do silêncio

Há um silêncio ensurdecedor no Brasil hoje.

A partir de 2013, manipuladas por interesses bem conhecidos da elite financeira e do poder econômico nacional e internacional, e insuflada pela mídia familiar e pelas redes sociais, as classes alta e média bateram panelas, vestiram verde e amarelo e saíram às ruas berrando palavras de ordem contra Dilma e o PT.

 

O movimento detonador – aumento das passagens de ônibus em São Paulo – ganhou foro de revolta popular contra a corrupção e o “descalabro” da gestão petista e, num crescendo, onde tiveram papel de destaque os ‘black blocks’ que atacavam prédios públicos e bens privados, num vandalismo intensamente coberto pelas câmeras da TV Globo, o movimento saiu vitorioso com o impeachment de uma presidenta honesta eleita por 54 milhões de votos.

‘A democracia foi preservada’ – diziam as manchetes agora sorridentes, enquanto cobriam a posse definitiva do vice-presidente Michel Temer, em agosto de 2016, após uma interinidade à espera da confirmação do impeachment pelo Senado Federal. E sua primeira manifestação à Nação foi ‘agregadora’, depois de afirmar que “o pior já passou”: “O momento é de esperança e de retomada da confiança no Brasil. A incerteza chegou ao fim. É hora de unir o país e colocar os interesses nacionais acima dos interesses de grupos. Esta é a nossa bandeira.”

                15 meses se passaram desde então. O pior já passou? O país está esperançoso? O país está confiante? A incerteza acabou? O povo está unido? Com jucás, padilhas, moreiras ocupando o Palácio do Planalto e geddels, henriquesalves, cunhas e rochaloures encarcerados (em casa ou em prisões mesmo), os interesses nacionais suplantaram os interesses de grupos?

E com o preço da gasolina ultrapassando os R$4,00 por litro, e do gás chegando a R$70,00 por botijão, a economia voltou aos trilhos?

Todas estas perguntas têm um sonoro não como resposta… A única coisa que mudou são as ruas, que mantêm um silêncio sepulcra! Por quê?

Anos atrás, fui visitar um grande amigo em São João Del Rei. Ex-presidente da empresa em que trabalhei por anos, ele tinha uma percepção e uma visão políticas do Brasil que eu sempre admirei mas, decepcionado e desmotivado, encerrou a carreira política ainda cedo, recolhendo-se à cidade natal, onde, entre outras coisas, impulsionou a implantação da Estrada Real, a antiga  rota do ouro entre as minas gerais e Paraty.

Recordando a ebulição das ruas durante a campanha das Diretas Já, ele fez algumas considerações, que eu rememoro agora para comparar com os tempos atuais. Mais ou menos assim:

– naquele tempo, as redes sociais não existiam e a caixa de ressonância das passeatas e movimentos populares eram os veículos de comunicação tradicionais, já então puxados pela Rede Globo. E a Rede Globo sempre detestou movimentos populares que não fossem “conduzidos” por ela, tanto que cobriu o grande comício pelas Diretas em São Paulo como se fosse comemoração pelo aniversário da cidade…;

– mesmo assim, mobilizados pelos sindicatos, pelos movimentos sociais e pelos políticos de oposição, houve manifestações no Brasil inteiro e, por muito pouco, a emenda do deputado Dante de Oliveira não foi aprovada na Câmara Federal (foram 298 votos a favor mas, como era emenda constitucional, precisava da aprovação de 320 deputados.) Infelizmente, 113 parlamentares não tiveram coragem de aparecer no plenário, o que mostra que boa parte do povo brasileiro está mais interessado em que seu representante em Brasília corra atrás de verbas que beneficiem seu município e não que defendam temas que alcancem e beneficiem todo o país;

– as Diretas não passaram, mas o candidato da oposição, Tancredo, aliou-se a importantes lideranças da situação e foi eleito indiretamente por esta mesma Câmara pouco tempo depois e, apesar de ter morrido antes da posse – o vice eleito, Sarney, que sempre apoiou o regime militar, assumiu – sua eleição liquidou a ditadura oficialmente. Ou seja, a ebulição popular é importante, mas no Brasil, desde o tempo colonial, as grandes divergências nacionais são resolvidas por cima, pelos poderes econômico e político, antes que a ebulição popular atinja o ponto de fervura e transborde, levando à uma situação indesejável para estes poderosos;

– o brasileiro em geral é conservador por natureza; ele não gosta de alterações abruptas em sua vida, pois a vida já é difícil de ser vivida na rotina do dia a dia. Os poderosos sabem e se aproveitam disto. No período pré-ditadura havia uma agitação muito grande, principalmente em sindicatos, movimentos sociais, faculdades… sempre intensamente repercutida pela imprensa. Quando a ebulição começou a soltar vapores – cabos, sargentos e suboficiais militares também passaram a reivindicar direitos, por exemplo – os poderosos, que vinham respondendo com  marchas da Família com Deus, pela Liberdade e contra o comunismo, derrubaram o caldeirão e, militares à frente, deram o golpe;

– é interessante verificar que em todas estas mobilizações populares, há um refluxo imediato, logo após encontrada ou imposta uma solução: parece que as pessoas se sentem aliviadas pelo fato de que uma situação que estava fugindo do controle volte aos trilhos da normalidade, permitindo que a vida retome seu curso natural. Mesmo que a solução encontrada não traga qualquer mudança real na situação anterior ou o que levou as pessoas às ruas permaneça exatamente como era antes, as pessoas não se animam a ir para as ruas novamente e exigir que o que foi gritado  seja entregue de fato. As pessoas balançam a cabeça simplesmente, e dizem: “deixa pra lá, o Brasil é assim mesmo!”

Este conformismo, presente numa frase típica do povão brasileiro – Deus assim quis – é que gera e explica o silêncio atual das ruas hoje. Até quando?

Eu sou de um tempo em que havia uma disputa entre a música popular brasileira e a jovem guarda, dita colonizada, provavelmente criada e estimulada pelas gravadoras com o objetivo de arrecadar mais dinheiro com a venda de discos e shows.

Nesta época, eu abominava músicas estrangeiras, especialmente americanas, uma estupidez, claro, já que música é emoção, não tem pátria nem ideologia, algo que só fui entender mais tarde, quando comecei a ouvir Peter, Paul and Mary, Mamas and the Papas e, acima de todos, Paul Simon e Art Garfunkel.

Estes tem uma música maravilhosa que retrata o momento em que vivemos. Traduzo apenas um verso, mas deixo a música no ar para reflexão: até quando?

“E na luz nua eu vi//Dez mil pessoas, talvez mais//Pessoas conversando sem falar//Pessoas ouvindo sem escutar//Pessoas escrevendo canções que vozes jamais compartilharam//E ninguém ousou//Perturbar o som do silêncio.// Tolos,  digo eu, vocês não sabem//O silêncio é como um câncer que cresce…//”.

 

 

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