Trump ou When things go from bad to worse

Eu me alfabetizei politicamente numa época em que o grande vilão, a força maligna que impedia o meu país de desenvolver-se, o poder econômico que roubava nossas imensas riquezas naturais e mantinha nosso povo em absoluta miséria, era os Estados Unidos da América, em cuja área de influência vivíamos e a quem tínhamos que prestar reverências.

O auge desta repulsa – minha e de parte da minha geração – ao Grande Irmão do Norte foi na década de 60, quando o oficialato militar, devidamente catequisado por ‘escolas preparatórias’ ianques, e insuflado pela elite econômica nativa, deu um golpe e instalou uma ditadura que durou 21 anos.

Toda a minha juventude convivi com dois sentimentos antagônicos: a audácia e o medo. De um lado,  a audácia de sair pela madrugada pintando muros e paredes com palavras de ordem, tipo “Fora milicos!”, “Deputado de merda!”, “Yankees, go home!”, ou de discutir em sala de aula ou escrever uma redação descendo o cacete no governo militar, sabendo que o colégio tinha dedos duros do DOPS (a temida Delegacia de Ordem Política e Social). De outro, o medo de ser pego pela polícia quando pintava as paredes (naquela época, era pintura mesmo, com cal e pincel, o que demorava ‘pacas’!) ou que os tais dedos duros (que a gente sabia que existiam, mas não sabia quem eram) me dedurassem de fato e, ao sair da escola, eu encontrasse dois meganhas a me esperar, para levar (de novo) para o temido DOPS.

Esta angústia persistiu na faculdade. Mas incorporou-se ao dia a dia, não atrapalhando o andamento normal da vida, agora dividida em estudo, trabalho e política estudantil. Eleito para o Diretório Acadêmico da Faculdade, nosso grupo tinha uma missão espinhosa, mas fundamental: reabrir o DA, que estava fechado desde as primeiras manifestações estudantis contra a ditadura em Belo Horizonte. Logo depois, assumi a presidência – Idalísio Aranha, o presidente, foi se juntar à guerrilha do Araguaia, onde desapareceu – e, apoiados firmemente pelo corpo discente e em alguns professores, conseguimos reabrir o Diretório.

Foram tempos duros e sombrios. Mesmo aqueles, como eu, que tentávamos nos manter numa oposição clara, mas pacífica, à ditadura, sentimos o paulatino aumento da violência da repressão: eram cada vez mais claros os sinais de perda de controle das autoridades constituídas, comandantes militares inclusos, sobre oficiais de médio escalão e policiais federais ou estaduais, que prendiam e arrebentavam sem dó nem piedade.

O ódio ao poder ianque chegou ao máximo! Representado pela figura de Dan Mitrione, um pseudo-funcionário da USAID (agência  dos Estados Unidos para o desenvolvimento internacional), na realidade um agente do governo destacado para atuar no Brasil e no Uruguai para ensinar a policiais e militares as técnicas de tortura, que ele considerava uma ciência ( “effective torture was science” , segundo anota a Wikipedia).

O “torturador  ianque” era um palavrão sussurrado em todas as rodinhas de estudantes comprometidos com a resistência à ditadura (muito depois é que ficamos sabendo seu nome, Daniel Mitrione, que, após ser preso e justiçado pelos Tupamaros uruguaios, batizou até uma rua em Belo Horizonte, felizmente desbatizada após a redemocratização do país).

Como depois da guerra sempre vem algo parecido com a paz, nós derrubamos a ditadura e implantamos esta democracia mambembe em que nos equilibramos até hoje. Eu me formei, me casei, tive filhas, trabalhei muito e aprendi muito: o antiamericanismo se transformou em uma admiração crítica, não só pela pujança de sua economia como pela constância de sua democracia. Lógico que esta pujança tem muito a ver com o domínio avassalador que exercem sobre países subdesenvolvidos como o nosso, assim como sua democracia tem falhas gritantes (onde já se viu um candidato ser mais votado pelo povo e o eleito ser o que tem mais votos no colégio eleitoral?)

Minhas filhas mais velhas e os netos moram lá, a primeira há mais de 20 anos. Estão felizes, realizadas e, acho, não voltam nunca mais, não porque não amem o Brasil ou porque achem que isto aqui é o ó do borogodó… Não, é porque se adaptaram e cresceram política e espiritualmente no “american way of life”, um sistema de vida que consideram ideal para criar os próprios filhos. No que fazem muito bem.

Minha dúvida atroz é se este “american way of life” vai durar muito tempo ainda, com Trump presidente. Aliás, acho que no ritmo que o Trump vai, o world way of life corre o sério risco de acabar logo logo, num imenso cogumelo de fogo. A não ser que os americanos, fazendo uso de uma característica comum à cultura deles, se cansem das twitadas de seu presidente e o fuzilem numa das esquinas da 5ª Avenue. Será que Mike Pence, o vice, apoiador do Tea Party, é  twiteiro também? E islamofóbico? E anti-social? E  mentiroso? E falsamente inconsequente e doido?

 

 

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