O ridículo levado a sério

Eu sei que a imensa maioria das pessoas não têm tempo ou saco para ver TV Câmara, TV Senado, TV Justiça ou, mesmo, Globo News/Record News/Band News/SBT News (a falta de criatividade é espantosa, não é mesmo?) quando transmitem, em tempo integral, sessões especiais destas instituições republicanas do país.

Mas eu estou aposentado e, por direito adquirido, tenho o direito de ficar em casa e, de vez em quando, quando há um assunto palpitante, arrebentar umas pipocas e me posicionar frente à televisão para ver como agem os representantes máximos de uma democracia constitucional, juízes supremos, senadores e deputados federais.

Geralmente, fico imensamente arrependido depois, pelo desperdício do tempo, mesmo de um aposentado. Mas, algumas vezes me regozijo por ser um simples brasileiro, sem compromisso com qualquer partido, facção ou posição política, ou seja, feliz por ter compromisso apenas com meus próprios ideais e valores, ensinados por meus pais e professores e firmados ao longo de mais de 50 anos de vida produtiva.

Foi o que aconteceu ao ver a sessão do Senado que julgou a aceitação ou não das medidas cautelares impostas por uma turma do Supremo Tribunal Federal ao menino do Rio, atualmente dublê de senador por minhas Minas Gerais.

Ver aquelas figuras chegarem ao púlpito não tem preço: levando algumas folhas de papel, peroram, mais ou menos indignadas, encarando uma plateia de nobres excelências que não estão nem aí para o que esbravejam: boa parte delas, as excelências, geralmente estão empunhando seus smartphones ou, quando não, formam um grupelho, batendo papo.

Neste último evento democrático, impressionou-me a postura companheira do nobre senador Romero Jucá que, sem “metade das tripas”, conforme informou outro digno representante do povo, o senador Renan Calheiros, refutou sua condição de pós-operado e dirigiu-se ao púlpito, com seus papéis em punho, para fazer uma pungente defesa da democracia, da separação dos poderes e da fulgurante carreira impó… luta do menino do Rio.

Eu conheci o ínclito senador Romero Jucá na década de 90, quando ele foi indicado pelo presidente Collor para uma das diretorias da estatal em que eu trabalhava, que tinha sido fundida (eu disse fundida!) com outras duas, num daqueles arroubos anti marajás do marketista presidente (os marajás continuaram existindo, claro, mas 30% dos funcionários foram chutados…).

Durante o processo de fusão, iniciado um ano antes, eu havia participado da criação da Diretoria de Operações da nova empresa, e num departamento da nova diretoria permanecera, mas o único dos funcionários fundidos que tinha vivência e conhecimentos de chefia de comunicação (área que sempre chefiei numa das empresas fundidas) era eu e, por isso, fui convidado (instado, é melhor!) a assumir a Comunicação Social da nova empresa. Não fiquei muito tempo.

Eu já disse isto em texto anterior: minha empresa original tinha um perfil muito técnico, mexia com armazéns públicos. A nova empresa, colloridamente fundida, era mais técnica ainda: mexia com armazenagem pública/financiamento da produção agrícola/abastecimento alimentar.

Ou seja: a mídia – publicidade da empresa em veículos como jornal, rádio e TV era objetivamente técnica: informar a compra de produtos agrícolas para formação de estoques estratégicos ou os novos preços mínimos pagos pelo governo, ou a entrega de cestas básicas à populações carentes (ainda não existia o Bolsa-Família… as ações eram assistencialistas mesmo!) ou o roteiro das carretas de alimentos em regiões com problemas de abastecimento. Não havia necessidade nem verba para propaganda institucional que enaltecesse o presidente ou um diretor pelo “brilhante” trabalho que ele fazia à frente da empresa.

Presidente e demais diretores entendiam e respeitavam isto. Romero Jucá não!

Ele tinha um assessor que era um funcionário da casa com quem eu me dava bem, mesmo não sendo amigo de fé e cervejada. Durante algum tempo, esta figura passou a me convidar para um almoço ou um chope no final da tarde ou uma festa familiar com, como ele gostava de enfatizar, a presença do diretor e sua esposa (na época, Teresa Jucá, hoje Teresa Surita, prefeita de Boa Vista, capital de Roraima, pela 5ª vez, Estado que o senador representa).

Algumas vezes fui, apenas, aos chopes de final de expediente, exatamente porque, já no primeiro, percebi as intenções: convencer o chefe de Comunicação da empresa a ser mais flexível com as verbas publicitárias, abrindo espaços para anúncios “institucionais” em determinadas emissoras e jornais de interesse do senhor diretor e sua senhôra…

Este joguinho durou uns dois ou três meses. Ao final, o próprio Romero Jucá costumava ir à minha sala para discutir a importância de se fazer mais publicidade da empresa, fosse pelo “brilhante trabalho social” que ela executava, principalmente nas regiões mais pobres do país, como o Estado de Roraima, fosse pela importância que a empresa tinha no contexto da agricultura nacional, em franca expansão num Estado pobre como o que ele representava.

Eu tenho consciência que eu sempre fui um chato em termos políticos. Não havia impedimentos legais que me proibissem, como responsável pela comunicação e pela publicidade da empresa, de liberar anúncios institucionais para todo e qualquer veículo de comunicação do país. Havia, apenas, minha convicção moral de que gastar dinheiro público em propaganda deste tipo não iria contribuir para a imagem ou os serviços prestados por uma  empresa pública, mas apenas para lustrar a imagem de um político, ora exercendo uma função pública nesta empresa.

Resultado: fui exonerado da gerência de comunicação. Fazia parte do jogo, eu aprendi isto desde que vim para Brasília em 1975. O que não deu para engolir foi o cara que trouxeram para o meu lugar: um jornalista recém demitido de um jornal da Paraíba, conhecido cabo eleitoral de políticos da região… qualquer político, desde que pagasse bem.

Primeira medida dele: aprovou uma campanha publicitária para rádio e televisão em Roraima, Amazonas e Pará, para divulgar a imagem da empresa na região Norte, ao custo de toda a verba publicitária (e mais um tanto, tirado não sei de onde) prevista para ser gasta o ano todo pela empresa.

Isto aconteceu no início da década de 90. Quase 30 anos depois, Romero Jucá é líder do governo Temer (depois de ser líder de FHC, de Lula e de Dilma), apesar de ter uns 17 processos nas costas. E continua subindo no púlpito do Senado para falar em democracia, em independência dos poderes, em perseguição da Justiça, em nome do povo brasileiro…

O que prova que a Justiça brasileira é realmente cega!

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