Repressão e hipocrisia (II)

Neste contexto, o ódio foi cevado… As redes sociais, um janelão de liberdade escancarado para todos e qualquer um, tornou-se um campo de batalha em que cada um e todos podiam, sem restrições, sem proibições, sem medo e, muitas vezes no anonimato, soltar todos os seus cachorros. Livres, leves e soltos, os cachorros ocuparam espaços públicos, em manifestações a favor ou contra, em jogos de futebol, em confrontos de gangues em favelas e periferias.

Ouvi, outro dia, numa reportagem, a desculpa de um torcedor que, saindo do estádio após uma partida de futebol, junto com outros, entrou numa baita briga com torcedores adversários: “Pô, cara… A gente sai do trabalho morto de cansado, pega um buzú lotado, chega no estádio e fica lá duas, três horas torcendo, gritando, botando o time pra frente e vem um juizeco de merda e não marca o impedimento?! Eu queria pular no campo e dar porrada nele…. mas não deixam! Se não botar a raiva pra fora aqui na rua, contra os babacas, vou chegar em casa fervendo e dar porrada na mulher, carái…!

Na minha época de estudante, em plena ditatura, havia uma música muito cantada por nós em reuniões escondidas – a gente saia da faculdade e ia “planejar” algumas ações “subversivas”, tipo pichar a casa de algum deputadinho arenista ou jogar lixo na varanda da casa de algum jornalista que apoiava a rebordosa – e, até chegar a madrugada e o momento da ação, ficávamos tomando cerveja, namorando, tocando violão e cantando músicas de protesto (bem baixinho, claro!) Uma destas músicas chamava-se “Subdesenvolvido”. Não me lembro mais de música e letra mas, procurando no Google, encontrei uma versão moderna, gravada em 2000, que dá uma leve pincelada dos 500 anos deste Brasil… sil… sil…!

Naqueles tempos obscuros, músicas, peças de teatro, filmes, novelas eram censuradas, assim como notícias na imprensa (são históricas as páginas do Estadão em que notícias eram substituídas por poemas de Camões). Protestos e manifestações eram terminantemente proibidos, também, e, quando superado o medo pelos políticos e líderes da oposição, eram solenemente ignorados pela mídia predominante então (o imenso comício pelas Diretas Já, nos estertores da ditadura, foi transformado, pela Globo, em comemoração popular pelo aniversário da cidade de São Paulo).

Mas, nem na pior fase da ditadura (período Medici), houve qualquer censura a museus! O que demonstra, cristalinamente, que, mesmo dispondo de mecanismos democráticos de convivência institucional, hoje – Parlamento, Justiça e Executivo funcionam normalmente, mesmo que de forma seletiva – é possível exercer-se uma ditadura dissimulada, bastando manipular corações e mentes, via meios de comunicação e redes sociais, que amedrontam os membros dos poderes institucionais e endeusam figuras medíocres, incapazes de desenvolver ideias além daquela que os tornou celebridades midiáticas, como Kim Kataguiri,  Fernando Holiday, Danilo Gentili, Janaína Paschoal e o inacreditável Alexandre Frota.

Só para lembrar: esta figura inacreditável é, ou foi, após uma carreira relativamente curta como ator de novelas globais e como marido de Cláudia Raia, ou vice versa, um dos mais requisitados ‘performers’ sexuais do país, presente em clubes noturnos, sex-clubs e filmes pornôs. Beirando ou ultrapassando os 50 anos, tornou-se propagandista dos movimentos ditos de “libertação do Brasil da canalha comunista”, digo, petista e do Escola Sem Partidos, merecendo até mesmo uma audiência com o ministro da Educação de Temer, logo após o impeachment, quando defendeu mudanças na grade escolar (nem a imprensa, nem o ministro informaram se ele queria introduzir o sexo como matéria curricular…!).

O MBL, Movimento Brasil Livre, cuja direção Alexandre Frota está reivindicando hoje, é o mais ativo movimento que defende, nas redes sociais e em passeatas, a proibição de quadros e ‘performances’ em museus. Conseguiram, com isso, encerrar o patrocínio do Santander ao Queermuseu em Porto Alegre e impedir que ele fosse apresentado no Museu de Arte do Rio.

Outra manifestação artística, o corpo nu de um homem numa performance do Museu de Arte Moderna de São Paulo, também causou furor inaudito nas redes sociais, também mobilizadas pelo MBL, que foi acompanhado por figuras carimbadas da política, como o presidenciável Bolsonaro, que está sendo processado pelo STF por incentivo ao estupro, e o deputado pastor Marco Feliciano (que anda sumido da mídia após ser acusado de assédio sexual de uma jornalista).

Interessante observar que o pastor deputado é fundador da Catedral do Avivamento, uma igreja neopentecostal ligada à Assembleia de Deus, tão evangélico quanto Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, dona da TV Record, que exibe, hoje, um programa chamado A Fazenda, nos moldes do BBB global; o último ‘gossip’ (eu disse gossip e não gospel) do programa: uma discussão ao vivo devidamente divulgada pelas redes entre um “peão” e uma “peoa” (assim os participantes são tratados) se um tinha transado com o outro ou não… Um ‘papo cabeça’ verdadeiramente evangélico e instrutivo, sem dúvida!  Será que os dignos defensores da moral, dos bons costumes e da família deste novo Brasil puro e virginal já cogitaram de fazer manifestações públicas em frente à Record ou à Globo?

Caso cogitem, sugiro, modestamente, o nome do movimento: LPS, que deverá significar “Louvamos o Pundonor do Sexo” e, ao mesmo tempo, homenageará um ilustre deputado estadual das minhas Minas, Lourival Pereira da Silva, que, durante a ditadura, quando Pierre Cardin criou a mini saia, fez um ribombante discurso na Assembleia, que terminava mais ou menos assim: A família mineira não permitirá que esta  indecência cruze os castos umbrais de sua casa. “Ninguém levantará a saia da mulher mineira!”

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