‘Butecadas’

Meu vizinho de chácara, bem mais antigo que eu na região, tem um hábito que, segundo ele, já tem uns 30 anos, iniciado quando se mudou para cá: todo sábado de manhã, ele se encontra com um grupo de amigos para tomar cerveja e jogar conversa fora num dos muitos ‘butecos’ do Posto Colorado, um tradicional posto de gasolina na saída norte de Brasília e ponto de referência para se chegar à região de chácaras onde eu moro.

Todo mundo, praticamente, tem este hábito: eu mesmo, ao longo da vida, transformei alguns ‘butecos’ em pontos inesquecíveis da minha vida. A começar pelo primeiro, o bar do Bileco (gozado, me lembro do nome do dono, mas não me lembro do nome do bar…), na verdade um corredor na rua da Bahia, em Beagá. Era um corredor mesmo, uns 10 metros de comprimento por dois e meio de largura, com o balcão ocupando todo o lado esquerdo e uma escada de madeira, que dava numa despensa no 1º andar, saindo do meio do corredor do lado direito. Havia duas mesas antes da escada e mais duas depois e sob ela.

Nossa turma do Mantiqueira Esporte Clube, às sextas, se encontrava nestas duas mesas pós escada. Por um motivo simples: ficarmos escondidos, pois só Paulinho Doró, assim chamado porque morava no Edifício Aurora e Balofo, já citado em outro texto deste blog, tinham 18 anos.  Mais tarde, já tudo ‘de maior’, houve outro ponto de encontro da mesma turma: o Café Bahia, um c* sujo famoso, na mesma rua, uns três quarteirões acima. Só que o encontro ali era mais tarde, depois que cada um deixava sua namorada. E dali, algumas cervejas depois com linguicinha frita e farofa, saíamos para a gandaia. Nesta época, praticamente todos já estavam trabalhando e sentindo-se livres para serem donos dos próprios narizes.

Na faculdade, a coisa mudou. E a turma mudou. Vivíamos uma ditadura e os encontros tinham que ser mais sigilosos, geralmente na casa daqueles que não moravam com os pais.  No caso do Curso de Comunicação, também havia um lugar público, o Mangueira’s, uma casa mais sofisticada na Pampulha. É que a gente tinha aula de fotografia no novo campus da UFMG, que ficava na Pampulha e, terminada a aula, na hora do almoço, a gente se reunia à beira da lagoa, num bar e restaurante atrás da igrejinha de São Francisco de Assis… para bater papo e beber cerveja (naquele tempo, não havia bafômetro…).

Depois, me casei, a primeira filha nasceu e eu só retomei o hábito quando nos mudamos para Brasília. Durante muito tempo, a turma do serviço se reunia, no final do expediente de sexta feira, no Moínhos (era este o nome mesmo?), no final da Asa Sul.

De vez em quando, eu trocava o encontro do final do expediente pelo almoço num restaurante no mercado do Núcleo Bandeirante, que servia buchada de bode, sarapatel, caruru, moqueca de peixe – tinha um companheiro de trabalho, Cristiano, um português fugido de Angola, que adorava estas comidas pesadas e “forçava” a gente a ir para lá. Ou seja, a gente comia isto, bebia cervejas e mais cervejas e tinha que voltar para o trabalho, mesmo que fosse às 4 horas da tarde, e para não fazer mais p….* nenhuma!

Voltando ao meu vizinho: dias atrás, fui comprar milho para as galinhas numa agropecuária do Colorado e, passando pelo Boteco do Bebeto, fui chamado por ele: “Leo! hoje é sábado… Senta aqui, toma umas com a gente!” Realmente, era sábado e eu não tinha nada urgente para fazer… Só não podia encher a cara, porque estava dirigindo (e hoje tem bafômetro!).

Me acheguei, fui apresentado aos três amigos (há um quarto, que andava doente e não apareceu) e, para impressionar – é sempre bom chegar num ambiente novo, em que você é minoria, fazer algo que chame a atenção – pedi uma cachaça, enquanto um deles me enchia um copo de cerveja. Discutiam eles, quando cheguei, as perspectivas futuras da região, com as próximas regularizações dos condomínios e a construção da via marginal e respectivos viadutos da saída norte – dois deles moravam no Grande Colorado e o outro no Império dos Nobres, condomínios horizontais muito comuns em Brasília.

— O Leo é diretor da Associação e acompanha este negócio de regularização bem de perto – disse meu vizinho, esperando que eu soltasse alguma grande novidade para seus amigos. Eu não sou mais diretor da Associação, mas continuo acompanhando o processo bem de perto.

— Não há muita novidade não… A nossa região é diferente da de vocês – expliquei – nossa área é de propriedade da União e a maioria dos condomínios está em terras do GDF ou particulares. A única boa perspectiva, me parece, é que ambos os governos estão precisando de dinheiro e vender as terras, neste momento, é muito bom para os dois.

A conversa, enfim, rolou fácil. Há diferenças óbvias entre as conversas em ‘butecos’ quando se tem 20 anos, quando se tem 40 e quando se tem mais de 60: aos 20, mulheres e conquistas são temas preferenciais, aos 40, filhos e trabalho ocupam maior tempo e, aos 60, política, futebol e, caso apareçam, mulheres que passam por perto, despertam mais interesse.

Meus parceiros de mesa e eu estávamos nesta última faixa e, depois de ouvirem minhas considerações político-administrativas iniciais, passaram a comentar sobre uma loura na faixa dos 50 anos, que, sozinha, se sentara numa mesa no ‘buteco’ seguinte e, segundo um deles, já tinha virado três brahmas geladas… a discussão era: quem vai chegar e oferecer a quarta? Ninguém foi! Ela tomou a quarta e a quinta, pediu a conta, pagou e foi embora.

Todos os presentes, exceto eu, eram parceiros de ‘buteco’ há 20, 30 anos. Do mesmo ‘buteco’… ou do mesmo local, pelo menos. E do mesmo dia, sábado. Nenhum frequentava a casa do outro. Conheciam a mulher, um filho ou uma filha por acaso, num encontro inesperado num shopping ou num restaurante. Mas se consideravam amigos de fé e, certamente, fariam qualquer coisa um pelo outro, se fosse necessário.

Esta foi uma parte importante da vida que eu abandonei há muitos anos. Por opção familiar, eu deixei alguns amigos de fé pelo caminho. Outra conta que ficará pendurada no balcão da minha vida.

4 comentários em “‘Butecadas’

    1. Obrigado, Lula. Eu não estava lembrando do nome de jeito nenhum… Quando fui escrever, me veio à memória aquele “moínho” iluminado rodando na entrada do bar e pintou o nome, só que no plural!

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