Sr. Spock

EMBrito

Leonard Nimoy foi um ator americano, falecido recentemente, que se imortalizou como um personagem não terráqueo: ele era vulcano na série Star Trek, um ser governado pela lógica e não pela emoção, como os terráqueos. Na genial criação de Gene Roddenberry, Spock tinha duas especificidades que o distinguiam dos demais personagens da nave Enterprise: tinha orelhas de morcego ou rato e era filho de uma terráquea com um vulcano, o que era considerado anômalo nas duas raças (assim como, para determinada classe social brasileira, é anômalo rica casar com pobre e esperteza jogador de futebol preto casar com “loura burra”…).

Eu sou um fã incondicional de Star Trek, mesmo da série cinematográfica atual, com outros atores, vez que os originais, como Nimoy, já morreram, ou estão muito velhos para atuar em séries de aventuras. É um pouco incômodo para mim, nos filmes atuais, uma certa humanização comportamental que autores/produtores deram a Spock, que passou a ter impulsos emocionais, como a raiva, o desejo de vingança e, até, uma escalada romântica com Uhura – provavelmente uma estocada hollywoodiana ao crescimento do conservadorismo americano a partir do Tea Party: afinal de contas, é um romance entre os personagens “diferentes”, o vulcano e a negra!

Eu me identifiquei muito com Spock porque sempre tentei ter aquela racionalidade imperturbável que ele demonstrava em qualquer situação. Mas o vulcano atual é mais condizente comigo, porque, mesmo sem demonstrar, tenho ações e reações emocionais eminentemente terráqueas.

E umas destas reações, de estupefação e indignação, é exatamente quanto às acusações contra o ex-presidente Lula: deixando de lado o fanatismo político que envolve qualquer coisa relacionada ao ex-presidente, não passa pela minha cabeça racional que ”o chefe de uma organização criminosa que roubou bilhões da Petrobras” esteja sendo acusado de receber, como benefícios de sua ação criminosa, apenas um tríplex em Guarujá, um sítio em Atibaia, um apartamento em São Bernardo do Campo e um prédio onde seria instalado o Instituto  Lula… É absurdamente ilógico!

Está bombando nas redes sociais um post, claramente de apoio à Lula, que eu acho revelador da situação fantástica em que vive o ex-presidente. O post começa assim, com Lula se dirigindo ao juiz Moro: “Meritíssimo, Vossa Excelência acha que eu, em troca do que fiz para todos os brasileiros, dos mais miseráveis aos mais ricos, sem nenhuma luta de classes, sem nenhuma revolução sangrenta, a ponto de entregar meu governo com aprovação de 80%, e com esse reconhecimento nacional e mundial todo, eu iria me comprometer recebendo como recompensa um tríplex que não vale R$ 2 milhões e um sitiozinho?”

Daí em diante, o post relaciona alguns bens usufruídos por conhecidas personalidades deste país: a cobertura do Sérgio Cabral no Leblon, o apartamento de FHC em Paris, a mansão paulista de um dos banqueiros Safra, o aeroporto “público” da fazenda do tio do Aécio Neves em Cláudio, a “casa” de praia em área de preservação ambiental dos irmãos Marinho em Paraty, o rico museu de arte sacra montado numa cobertura em Salvador do falecido ACM, a fazenda com 500 mil cabeças de gado do Daniel Dantas, a casa da Dinda e a coleção de carros luxuosos do Fernando Collor…

 

O post não cita, mas poderia lembrar, também, dos bens de figuras enroladas na Lava Jato, todas gozando as delícias da prisão domiciliar, temporariamente dotadas de tornozeleiras eletrônicas (que podem retirar quando mergulham em suas próprias piscinas), como a coleção de joias da mulher do Cabral, como os carros de luxo do Zwi Skornicki ou a mansão no bairro das Dunas de Fortaleza, de Sérgio Machado, ou do apartamento de férias em Jurerê Internacional do Delcídio do Amaral ou das malas entupidas de dinheiro, 51 milhões!!!, no “bunker” dos irmãos Vieira Lima, em Salvador.

E aqui entraria a lógica do Sr. Spock: depois que se tornou sindicalista, na década de 70, depois que se tornou político, na década de 80, depois que virou presidente da República, em 2002, e, principalmente, depois que deixou a Presidência com mais de 80% de aprovação popular e elegeu sua sucessora, Lula teve sua vida – bem como de sua família – investigada, desnudada, pesquisada, garimpada em todos os aspectos e sentidos, não se encontrando qualquer mil reais ou bem móvel ou imóvel não condizente com sua renda ou não declarado à Receita Federal.

 

Ou seja: os potenciais milhões e milhões corruptados “pelo chefão desta quadrilha que assalta o Brasil desde 2002” se resumem a um apartamento “falsamente alugado” em São Bernardo do Campo, a um tríplex de pouco mais de 200 m², mas com elevador,  na praia farofeira do Guarujá, a um sítio com dois pedalinhos e um barco de lata e uma antena da Oi próxima, em Atibaia, e a um possível prédio na Vila Clementino, um bairro nobre de classe média alta, na zona sul de São Paulo, onde seria instalado o Instituto Lula?

Que me perdoem procuradores, juízes e policiais da Lava Jato, desembargadores e membros superiores da Justiça brasileira, trogloditas e inocentes debatedores das redes sociais, mas é ilógico! Todas as acusações a Lula até agora – não estou falando das divergências políticas, que são válidas e mais do que necessárias numa democracia real – carecem de materialidade, indicando, no fundo, uma única coisa, o preconceito de classe, que os brasileiros das classes mais abastadas – ou que a ela gostariam de pertencer – tentam esconder debaixo dos tapetes persas ou puídos de suas residências…

E não precisa ir longe para se comprovar este fato, de uma lógica vulcana: releiam os nomes e profissões citados em parágrafos anteriores: todos – e eu disse todos, sem exceção  -são pessoas provenientes da classe média média ou alta, que tiveram oportunidade de cursar universidades, alguns fazendo complementação curricular no Exterior, que mantiveram ou aumentaram o patrimônio familiar trabalhando no Brasil, por mérito próprio ou por fortes laços familiares, políticos ou de classe.

Para esta gente, com sobrenomes estrangeiros (Dallagnol, Moro, Gebran, Skornicki) ou derivado da antiga nobreza lusitana ou dos chamados judeus novos (Cardoso, Cabral, Vieira Lima, Neves, Machado), Silva’s são “gentinha”, não só porque se originam de dezenas de famílias portuguesas sem maiores tradições nobres ou de gente sem eira nem beira que aportou ao Brasil e adotou o sobrenome para esconder o passado nebuloso, que se espalhou pela “colônia”, se misturando com índios e negros, formando este Brasil inculto, popularesco e mal educado, “que não conhece o seu lugar”…

Na opinião desta sub-elite preconceituosa, não existia qualquer possibilidade de um brasileiro com quarto ano primário e curso de metalúrgico pelo SENAI chegar à Presidência da República e realizar um governo que os dignos e bem preparados representantes das classes mais altas nunca conseguiram realizar… Na opinião destes WASP’s brasileiros, pretos, pobres e nordestinos em geral só podem ser trabalhadores assalariados ou bandidos de morros e favelas, que deveriam se contentar em viver suas vidas miseráveis e não querer assumir postos na sociedade destinados aos bem nascidos, que sabem o que fazem…

Para estes ‘espertos’, que adoram bater panelas e se vestir de verde-amarelo quando a Rede Globo manda, o povo brasileiro devia ser proibido de votar , porque vota em troca de alguma prenda, devia ser proibido de viajar de avião, porque é mal educado, fala alto e come de boca aberta, devia ser impedido de ter carro, porque existem ônibus e metrôs para conduzi-lo para o trabalho, devia se contentar em aprender a ler e escrever ou, no máximo, fazer algum curso técnico, para aprender um ofício e trabalhar dignamente, sem maiores e estúpidas reivindicações, em prol da grande pátria brasileira… salve! salve!

Mas eis que de repente, apesar das denúncias judiciais, das manchetes escandalosas, dos editoriais furibundos, dos jornais nacionais intermináveis, do ataque diuturno, enfim, as pesquisas dizem que vai dar Lula na cabeça de novo em 2018! “Acabem com ele…! se não, este povo imbecil assume o poder de novo e nosso mundo vai para o ralo!” Plim! Plim!

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