Eu cansei… (I)

Realmente, acho que cansei… Depois de 60 anos acompanhando e vivendo a política brasileira, estou de saco cheio! Da política, dos políticos, dos partidos, dos analistas, dos podres poderes e das notícias sobre a zona em que se transformou, no Brasil, uma das mais antigas e nobres artes criadas e exercidas pelo ser humano. E do povo, destinatário final desta arte, que continua passivo e amorfo, aguardando um salvador da pátria enviado por Deus, que o guiará para a felicidade eterna…

Eu tive esta percepção ao ler um debate num dos grupos de Whats’App que participo. Uma fraternal amiga postou, antes da votação pelo prosseguimento da acusação ao Temer ter início:           “ … humildemente, pergunto: teremos algum ganho trocando Michel por Maia?”, recebendo como resposta de outro velho amigo, ao que tudo indica ainda esperançoso de que fossem consentir na investigação: “Penso que teremos uma investigação contra ele e o Maia terá 180 dias; depois disso, o Supremo manda o Temer para casa e tem que ter outras eleições. Se pensamos assim, não precisa eleger outro, pois não saberemos nunca como serão…” E minha amiga replicou: “Não foi essa a minha leitura e você não me deu resposta satisfatória. Léo, kd tu?”

Eu estava acompanhando o debate e cheguei a esboçar um movimento para entrar nele, mas refuguei. O que eu iria dizer? Que a “história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, a já empoeirada frase de Marx? Só que nossa história está se repetindo pela enésima vez, e considerando apenas o tempo em que eu acompanho, com gosto, a política nacional.

Eu já disse aqui que a movimentação popular no dia do suicídio de Getúlio Vargas, despertou meu interesse por “aquilo”. Eu tinha 06 anos, mas a multidão na avenida Afonso Pena em Belo Horizonte, berrando e querendo briga, atiçou minha curiosidade,

A grande revolta ficou no cartaz: Morra Lacerda!

que só foi ser saciada, realmente, alguns anos depois, depois que tive condições de mergulhar nos livros de história e de atazanar a vida dos professores de história querendo saber o que significava “aquilo”, uma realidade que os livros de história não contavam.

E quem se aprofundou no conhecimento desta realidade – como meu amigo no grupo deste debate, que foi professor de História por mais de 30 anos – sabe que, de 1950 para cá, a primeira tragédia se deu com o suicídio de Getúlio e as primeiras farsas

..

(não apenas uma) aconteceram com a pseudo-renúncia/tentativa de golpe de Jânio Quadros e a movimentação para impedir a posse do vice legitimamente eleito, que resultou na ‘parlamentarização’ do país, logo derrubada.

E que a segunda tragédia se deu com a quartelada de 1964, que resultou numa ditadura de 21 anos, substituída pela terceira farsa, com a eleição indireta de Tancredo, o que foi sem nunca ter sido.

 

Farsas que foram seguidas por mais farsas (a eleição e o impeachment de Collor, o 2º mandato de FHC, o impeachment de Dilma), todas sob os auspícios da Rede Globo, e sem tragédias, seja porque a tragédia se tornou parte do cotidiano violento das grandes cidades, seja porque o povo prefere participar de tragédias novelescas globais (ou bíblicas recordianas) a lutar pelo seu destino.

E é aí que reside a razão do meu cansaço: eu sempre acreditei que o Brasil tem vocação natural para se tornar uma Nação e não apenas um país periférico, submisso aos países de primeiro mundo.

Eu sempre achei que o nosso povo, à medida que tomasse pé da sua importância, pela educação e pela conscientização política, faria frente a uma elite econômica egocêntrica e predadora, cujo único interesse é se tornar mais rica e poderosa, e que considera o Brasil apenas um quintal do próprio latifúndio, e seu povo uma partida de escravos, comprada, baratinho tipo pão e circo (arroz e feijão e TV Globo) para servir à Casa Grande.

Tantos e tantos anos depois, alguns deles em minha longínqua juventude brigando, física ou politicamente, para convencer os outros que minhas certezas eram as certas, percebo que não se conscientiza um povo apenas com educação e politização, não se constrói uma Nação somente louvando a liberdade e a democracia, não se chega ao primeiro mundo sem derramamento de sangue, seja do próprio povo, seja de povos ainda mais fracos que nós mesmos.

Quem viveu os anos de chumbo (e não apenas passou por eles), sabe o valor da liberdade, quem foi apreendido e humilhado em uma delegacia, apenas por estar protestando, e tem amigos que foram mais fundo na luta, sendo presos e torturados, sabe o valor da democracia, mesmo que ela seja tão imperfeita e, no caso de países com povos politicamente analfabetos, tão contraditoriamente elitista. Mas, quem conquista a liberdade e define a democracia que quer ter é o povo! Todo o povo… não apenas sua elite ou a classe média agarrada a seus pequenos interesses. E, para isto, ele não pode ficar esperando um raio trovejante mandado pelo Todo Poderoso ou o Messias apontado pela Rede Globo…!

   

E quando é que o povão brasileiro se revoltou, por vontade própria e de fato, contra alguma coisa? Na verdade, foram várias as revoltas, todas localizadas e muitíssimo pouco contadas pela história ensinada em nossas escolas (por interesse dos donos do poder, claro!) Basta você digitar “Lutas e revoluções no Brasil” na Wikipédia, para descobrir um rol imenso de revoltas, percebendo que os indígenas autóctones nunca foram passivos e amorfos, brigando por seus direitos desde que brancos d’além mar invadiram suas terras (assim como os negros  escravizados, desde que foram trazidos para o Brasil). Vocês sabiam que houve a Confederação dos Tamoios e dos Cariris, a Resistência dos Guaicurus e as Guerras dos Aimorés, dos Potiguares, dos Muras e dos Manaus? Flechas contra arcabuzes, vitórias impossíveis, mas revoltas que, se contadas e aprendidas por todos os brasileiros, poderia lhes dar a consciência do que é ser um povo a forjar uma Nação.

Quando muito, as pessoas mais ligadas já ouviram falar de Palmares, “aquela história de negros fugidos”, não é mesmo? Ou dos Emboabas, da Confederação do Equador, da Guerra dos Farrapos e de Tiradentes, todas revoltas de elites regionais poderosas contra o poder central, do Império. E da Revolução de 30, da elite política de alguns Estados contra a elite política de São Paulo, e da Revolução de 32, da elite política de São Paulo contra a elite política de outros Estados… 

E, claro, da “revolução” mais recente, quando a elite econômica e política se revoltou contra os rumos popularescos de um governo legitimamente eleito e, através da mídia (sempre ela!) convenceu a classe média católica apostólica romana e os militares que o governo estava cubanizando o país e precisava ser derrubado. E foi derrubado e substituído por uma ditadura, que durou 21 anos…

Revoltas populares mesmo, povão lutando por seus direitos, nós tivemos a Guerra de Canudos e a Guerra do Contestado, ambas com uma profunda gênese religiosa sob os auspícios de ‘fanáticos’, Antonio Conselheiro na primeira e os monges João Maria, na segunda.

E uma tentativa fracassada, pela heroica e esquecida Coluna Prestes, que percorreu 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil tentando conscientizar e insuflar o povão. Participou de 50 batalhas vitoriosas, mas foi derrotada no objetivo fundamental: o povo não se mexeu!

 

Ah! e teve Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, o Rei do Cangaço… ! Que, segundo a história ensinada, de leve, permanece sendo apenas isto, o Rei do Cangaço, que matava sem dó nem piedade…!

A característica fundamental do Brasil nos impasses políticos é o acordão “por cima”… e o maior exemplo disto aconteceu neste último ano: o impeachment de uma presidenta legitimamente eleita e a manutenção de outro, alçado à Presidência exatamente em razão deste impeachment, ambos os atos executados pelos mesmos deputados, também eleitos democraticamente pelo povo brasileiro. Ficou claro que, para eles, ‘pedalar’ não é uma atitude à altura da dignidade exigida de  uma presidenta da República, enquanto acertar o recebimento de propina nos porões de um palácio é apenas uma alternativa criativa para um ato rotineiro, característico de políticos que não gostam de aparecer.

Ironias à parte, é aí que meu cansaço se materializa: por que este nosso povo sofrido, enganado, espoliado permanece mudo, acomodado, sempre à espera de um milagre dos céus? (continua)

 

 

 

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