Quem é que manda mesmo?

Eu acho que a natural, mesmo que não iminente, queda do atual governo brasileiro, com as possíveis prisões de seu  safado e traiçoeiro presidente e de sua quadrilha, merece uma reflexão de todos. Uma reflexão que vá além das muitas e muitas análises que serão feitas, ao longo de dias e semanas, sobre a podridão da política brasileira, sobre a ganância da nossa elite, sobre a ignorância de nosso povo, sobre a tendência irresistível de nosso país em ser um mero coadjuvante do mundo, deitado que esteve e permanecerá em berço esplêndido. Uma reflexão que parta de uma simples pergunta: quem, realmente, exerce o poder no Brasil?

Esta reflexão é crucial neste momento, a começar pela indefinição de nosso futuro imediato, quando o Brasil está parado no fundo do poço, com 14 milhões de desempregados (quase 15% da força de trabalho), com as instituições republicanas se digladiando por um poder aparente e com projetos que rebaixam a classe trabalhadora à condições de subserviência ao patronato tramitando no Congresso. Momento crucial, aliás, em que o debate posto nas casas legislativas, nas redes sociais e na grande imprensa é se o governo tem ou não condições de resistir, se o Lula será preso hoje ou amanhã, se o substituto do procurador-geral será pró ou contra a Lava Jato… se o Trump é um grande homem ou um grande fdp…!

Que os jovens me permitam relembrar fatos da história que eu vivi e que lhes é contada quase que “en passant” (quando é contada) nos bancos escolares:

– João Goulart, Jango, foi eleito vice-presidente de Jânio Quadros em 1960 (naquela época, vice também tinha que ser votado, tanto que Jango, candidato a vice da outra chapa, foi eleito, e Milton Campos, da chapa de Jânio, o vencedor, não foi);

– apesar de pertencer à classe abastada, estancieiro gaúcho que era, Jango havia sido ministro do Trabalho do governo de Getúlio Vargas, e, por isto, era odiado pelas elites nacionais, que abominavam as mudanças nas relações trabalhistas promulgadas pelo presidente e conduzidas por ele, mudanças que reduziam os privilégios patronais e que, exatamente por isto,  ela considerava como a “comunização do país”;

– a tentativa de engessar Jango não deu certo: o parlamentarismo em que ele assumiu foi derrubado num plebiscito popular, o que permitiu que ele lançasse as Reformas de Base – agrária, educacional, fiscal, eleitoral, urbana, bancária – reformas que levariam à “cubanização” do Brasil, na visão das mesmas elites;

– há 50 anos atrás, a imensa maioria da população brasileira, o povão, era de uma ignorância política absoluta e vivia totalmente à parte das decisões governamentais, preocupada única e exclusivamente em sobreviver dia a dia; a única ligação com a política era a obrigatoriedade – “uma chatice!”- de votar, o que fazia xingando, porque tinha que perder um domingo de descanso para ir parar numa fila quilométrica para escolher um cara que ele não tinha a menor ideia de quem era;

– há 50 anos atrás, a classe média não era muito diferente do povão em seu desinteresse pela política, mas tinha acesso à informação, via jornais e rádios (a televisão estava engatinhando ainda – a TV Globo, canal 4, do Rio, primeira emissora da poderosa Rede Globo de hoje, começou a operar em 1965);

– e o que a imprensa de então “informava” à classe média que, por sua vez, influenciava o povão? Basta dar uma pesquisada para conhecer as manchetes e os editoriais de Estadão, em São Paulo, do O Globo, no Rio, e de qualquer jornal regional dos Diários Associados, a poderosa de então, e, evidentemente, da Tribuna da Imprensa, o jornal de Carlos Lacerda, uma espécie de Veja da época, que não dava tréguas para o governo “corrupto e comunizante” de Jango.

 

– a mesma pesquisa poderá mostrar o que estes mesmos jornais “informaram” a seus leitores durante a ditadura militar, independentemente da censura que existia nas redações, mesmo naquelas que eram amigas
e que buscavam, sempre, enaltecer os feitos e ações dos generais de plantão na Presidência da República;

– neste longo período de trevas, as Organizações Globo se deram muito bem. Já no primeiro momento da “redentora”, nosso companheiro jornalista Roberto Marinho escreveu um editorial candente: “Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam se unir todos os patriotas para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para os rumos contrários à sua vocação e tradições… Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegem de seus inimigos.”  E, óbvio, passou a contar com as benesses dos novos “donos do poder”;

50 anos depois, O Globo fez outro editorial, pedindo desculpas

– começando pela legalização da Rede Globo de Televisão, criada em 1964 com um aporte de recursos da americana Time-Life de US$25 milhões (o que era proibido pela legislação brasileira), através de uma canetada do general-presidente Costa e Silva, jornais e emissoras de rádio e televisão das Organizações Globo passaram os 21 anos da ditadura recebendo a maior percentagem de recursos publicitários do governo federal, incluindo estatais, além de financiamentos de bancos públicos, não só para adquirir emissoras regionais e expandir sua influência por todo o território nacional, como para aprimorar sua estrutura tecnológica. Em troca, a permanente glorificação do regime militar e a autocensura sobre as perseguições políticas, as torturas, a corrupção deslavada nas grande obras ufanosas – Ponte Rio-Niterói, Transamazônica, Angra I… (É isso aí mesmo, jovens, a corrupção não foi inventada pelo lulo-petismo não!)

Com a derrubada da ditadura, entramos numa nova era: a democracia tatibitate de Sarney, ACM e Ulysses, os dois primeiros, coincidentemente, donos de afiliadas da Rede Globo em seus respectivos Estados, seguida pela democracia autopromocional de Collor, também dono de afiliada da Rede Globo em seu Estado, e pela democracia neoliberal de FHC, que não tinha uma afiliada da Rede Globo, mas teve uma “afilhada” e um suposto filho devidamente ocultos por ela na Espanha, em troca de uma pechincha: a Globo livrou-se de uma dívida praticamente impagável de US$1,8 bilhão de dólares , através de uma operação financeira de capitalização da Globo Cabo proporcionada pelo  BNDES (http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/escandalo-mirian-no-governo-fhc-bndes-salvou-globo-da-insolvencia/)

E aqui introduzo um personagem que aparecerá outras vezes neste blog, o Incompreensível, que bem poderia ser irmão do Sobrenatural de Almeida (imortal criação de Nelson Rodrigues, que jogava nas suas costas todas as desgraças que aconteciam com o seu Fluminense), pois grande parte das agruras e dissabores vividos pelos governos petistas, com a chamada democracia popular pós-FHC, adveio da postura claramente anti-Lula assumida pelas Organizações Globo que, mesmo assim, foi tratada com imenso “carinho e consideração” – e verbas, muitas verbas  – por estes governos.

Agora, temos um governo ilegítimo, imposto por um golpe parlamentar integralmente fomentado e avalizado pela Globo, apresentando, sem retoques, a verdadeira face do regime que o Brasil sempre teve, uma democracia corrupta e dependente, que as elites nacionais impuseram ao país desde Dom Pedro I, uma elite econômica sobre a qual, há 50 anos, paira o poder de fato da Globo, mediando  as desavenças intestinas entre os grupos que digladiam apenas pelo poder político aparente.

E não há melhor prova de quem é que manda mesmo do que a atualidade brasileira: um ano depois de ser entronizado como o presidente que, segundo a grande imprensa, Globo à frente, era a salvação da pátria, pois iria endireitar o Brasil, colocando-o no rumo certo, Michel Temer conseguiu descer ao mais baixo índice de popularidade dos últimos 28 anos… Nível tão deprimente assim seria possível sem a repercussão diária no Jornal Nacional? Não seria…

O que é compreensível, pois  a Globo já armou o bote para derrubá-lo… e só não o fez ainda  porque não encontrou o Sassá Mutema da vez! Quem sabe isto explique a postura “equilibrada” do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, sempre falando obviedades frente às câmeras globais… ou o mais novo artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, conclamando Temer a renunciar para o bem do Brasil?

Já que uma eleição agora é indireta, não seria melhor indicar um dos filhos do Roberto Marinho de uma vez? Já imaginaram que maravilha? Uma entrevista do presidente naquela bancada do Palácio do Planalto com as câmeras dando um close em seu rosto ao som  do Plim Plim!

 

 

 

 

 

 

 

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